sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Consciência Negra em (sala de) aula

Neste dia da Consciência Negra, _Edu_cação sugere alguns materiais que podem ser trabalhados em sala de aula, buscando contribuir nesta difícil tarefa de criar um sentimento de identidade com nossa História, não só para os que se consideram negros, mas para todos os brasileiros.

Maré Capoeira

Sinopse: Maré é o apelido de João, um menino de dez anos que sonha ser mestre de capoeira como seu pai, dando continuidade a uma tradição familiar que atravessa várias gerações. Um filme de amor e guerra.
Este curta de ficção contém muitas informações históricas que podem ser trabalhadas em sala de aula, como a origem dos cativos africanos, sua trajetória no Brasil e sua contribuição para a formação de nossa cultura. Além das cenas e imagens produzidas, o filme conta também com arquivos que ilustram e destacam a participação da cultura negra em nossa História, criando, assim, uma identificação e uma valorização do legado africano.

Maracatu, Maracatus

Sinopse: As diferenças culturais entre as várias gerações de integrantes do maracatu rural, ritual afro-indígena que tem suas origens nos engenhos de açúcar de Pernambuco.
Aqui pode ser trabalhado o conflito e/ou encontro de gerações. O esforço dos mais velhos para manter as tradições bate de frente com a ânsia dos mais jovens pela novidade. Desse embate, surgem movimentos artísticos pernambucanos que mesclam a tradição e o que há de moderno.
Além da apresentação de muitos rituais de origem africana, este filme também pode servir como análise das mudanças e permanências existentes nessa relação passado-presente.


Identidades em Trânsito

Sinopse: Identidades em Trânsito trata das experiências de estudantes de Guiné-Bissau e Cabo Verde formados no Brasil. O filme aborda a saída, a chegada, adaptação no Brasil, e o retorno desses estudantes aos seus países de origem.
Documentário muito informativo e que exige a atenção do espectador. Com isso, pode-se conhecer a impressão que os jovens africanos têm do Brasil, bem como buscar relações entre nosso país e os outros colonizados por Portugal. A análise das experiências dessas culturas, que se encontraram ao longo da História, objetiva a criação de um sentimento de identificação entre nossa cultura e a cultura do outro.

Existem muitas ferramentas para copiar esses videos da internet, mas, simplificando, é possível exibir os filmes através deste blog. Basta executá-lo e, se desejar, clickar em "exibir tela cheia"

Além desses vídeos, outro material que pode ser utilizado é o texto "A cor do Brasil", de Greice Ferreira da Silva:

Clique aqui para baixar o arquivo do texto

  • Sugere-se a leitura do texto pelos alunos, seguida de uma discussão e/ou produção textual na qual os educandos procurem explicar a expressão “aquarela do Brasil”, citada pela autora nesse contexto.
  • Outra atividade que pode ser trabalhada seria um mapeamento dos diversos povos que contribuíram na formação da sociedade brasileira, com o auxílio de um mapa-múndi.
  • Questionar, junto aos alunos, as definições existentes para as múltiplas etnias existentes no território brasileiro (negro, branco, mameluco, mulato, caboclo etc) – buscando descobrir se essas nomenclaturas conseguem realmente definir essa mistura – também pode gerar resultados interessantes.
  • Pode-se também fazer um levantamento, com os alunos, sobre quais fontes poderiam ser usadas para ajudar na difícil tarefa de encontrar esclarecimentos na busca de uma identidade para o povo brasileiro.
  • Também se pode aproveitar o texto para outras atividades, discussões e produções, ficando a critério da criatividade do professor e de seus alunos.

Bom trabalho!

domingo, 15 de novembro de 2009

República alegórica

Nosso cotidiano é repleto de símbolos e alegorias. Abrimos os jornais e observamos nossos políticos serem representados por figuras carregadas de significados, como um porco, um marajá ou um burro. Atribuímos a profissão de padeiro aos portugueses. Os chineses e japoneses são donos de pastelaria e são muito inteligentes, enquanto teimamos em dizer que nossos irmãos lusitanos são "burros" (outra alegoria, representando a falta de inteligência)... Não precisamos trabalhar no dia 21 de abril ou no 15 de novembro, mas não lembramos por que; apenas agradecemos por não termos que aturar nosso insuportável cotidiano. No dia em que é lembrada a morte (por enforcamento e esquartejamento) de Tiradentes, fazemos um churrasco. Porém, lembramos do significado do 7 de setembro, pois levamos nosso filho para a principal avenida da cidade a fim de reuni-lo com seus colegas e professores da escola para celebrar a Independência numa passeata. E nos orgulhamos e tiramos fotos. Principalmente se nosso filho está carregando a bandeira nacional, símbolo enraizado em nossos corações, o qual também nos identifica em eventos mundiais, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas.
'O Malho', 12/11/1904Existe uma lista infindável de símbolos e alegorias que se encontram enraizados em nosso imaginário (como o hino e a bandeira nacional) ou que são apenas tentativas de formá-lo (como o feriado de 15 de novembro ou a ideia de que a justiça é cega). A Proclamação da República no Brasil é considerada um evento histórico muito controvertido, no qual houve uma verdadeira batalha entre ideologias republicanas pela legitimação do novo regime. Dentre as formas buscadas para essa legitimação, a elaboração de um imaginário social é parte integrante. Nessa elaboração, foi dada muita importância à expressão dos sentimentos republicanos através de símbolos, alegorias, rituais e mitos. Atingir o imaginário popular a fim de agregar-lhe valores republicanos era um dos principais objetivos dos envolvidos na citada batalha. Nesta empresa, além do problema das divergências entre as correntes ideológicas envolvidas, encontrava-se também o fato da República ter sido proclamada sem a participação popular. Daí a necessidade de se criar um imaginário social sobre a República. Não basta mostrar ou inventar a verdade, é necessário fazer com que o povo a ame, apoderando-se de sua imaginação, formando almas.

Na busca pelo entendimento da legitimação da República brasileira, o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra “A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil”, concentra-se no tema da batalha pelo imaginário popular republicano.

No mundo moderno, a ideologia é o instrumento para a legitimação de regimes políticos. Mantendo sua tradição de exportador de matéria-prima e importador de manufaturados, ideias e instituições, no contexto histórico da proclamação da República brasileira havia três correntes ideológicas: o liberalismo à maneira norte-americana (prezava a individualidade), o jacobinismo à francesa (prezava o coletivo) e o positivismo (divididos entre os positivistas e os positivistas ortodoxos). Supunham modelos de república, de organização da sociedade, carregados de aspectos utópicos e visionários. Essas ideologias disputavam a definição da natureza do novo regime político brasileiro. Nessa batalha, cada uma delas, à sua maneira, defendia o envolvimento popular na vida política.
Dentre os três distintos modelos de república disponíveis aos brasileiros, o norte-americano e o positivista davam ênfase à organização do poder, enquanto o jacobinismo colocava a intervenção popular como fundamento do novo regime. Com exceção de poucos radicais, os vários grupos ideológicos acabavam dando ênfase ao Estado. A dificuldade brasileira, tanto com os modelos antigos quanto os modernos, foi a falta da existência anterior do sentimento de comunidade, de identidade coletiva, de pertencer a uma nação. Sem esse sentimento, negligencia-se o fato universal da diversidade e do conflito.

'A Proclamção da República', de Henrique BernadelliNessa busca pela criação de um imaginário sobre a República, os vencedores do 15 de novembro tentaram construir uma versão oficial dos fatos, ampliando ao máximo o papel dos atores principais e reduzindo ao mínimo a parte que coube ao acaso. Iniciava-se a batalha pelo estabelecimento do mito de origem. Nesta luta, o embate se dava entre os partidários de Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e Floriano Peixoto. A luta maior é pela qualificação de fundador, entre Deodoro e Benjamin Constant e se estende até hoje. Com a análise das tentativas de construção desse mito de origem, para o autor, pode-se descobrir as contradições que marcaram o início do regime, mesmo entre os que o promoveram: o mito da origem ficou inconcluso, assim como a República. Vistas essas divergências, nota-se a dificuldade em encontrar ou construir um herói para o novo regime. O tema do herói interessa ao autor por ser um instrumento eficaz para atingir a mente e o coração do povo. Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias, pontos de referência para a identificação coletiva. No caso da República brasileira, a construção do herói pode servir também para compensar e preencher o vazio da participação civil em sua proclamação. O personagem que aos poucos se revelou capaz de atender às exigências do mito não estava presente no evento da proclamação: Tiradentes.
'Tiradentes', de Décio VillaresEsse patriota, em seus últimos dias na prisão antes da execução, transformou-se num místico por força dessa experiência traumática e da lavagem cerebral que sofreu pelos frades. Esse misticismo final não destruiu seu apelo patriótico. A coragem que demonstrou vinha do fervor religioso. Assumiu explicitamente a posição de mártir, identificou-se abertamente com Cristo. Tudo isso se encaixava perfeitamente no sentimento popular, marcado pela religiosidade cristã. Não dividia as pessoas ou as classes sociais. Ligava a República à Independência e indicava o caminho para a liberdade. Até os dias atuais, sua figura é utilizada por conservadores e liberais, por revolucionários e reacionários. Tanto pela esquerda quanto pela direita. O autor conclui que este é o segredo para a vitalidade desse herói: a ambiguidade.

'República', de Décio VillaresInteressou também ao autor a utilização da alegoria feminina no imaginário republicano francês, e sua tentativa de importação pelos brasileiros. A alegoria da Primeira República francesa inspira-se na tradição clássica da deusa Atena. Na Segunda República, a alegoria agora é apresentada como uma mulher amamentando duas crianças, retirando o aspecto belicoso anterior. No período que precedeu a Terceira República, com a luta contra Napoleão III, recuperou-se a antiga representação. Como reação, o governo incentivou o culto à Virgem Maria. Eis uma batalha de cultos.
'Alegoria da República', de Manoel Lopes RodriguesNa importação dessa alegoria pelo Brasil, o esforço inicial deveu-se aos cartunistas, os quais utilizaram o modelo clássico. Apesar disso, os pintores, excetuando-se os positivistas, praticamente ignoraram o simbolismo feminino para a República. No caso dos positivistas, a mulher poderia ser utilizada na representação da escala dos valores positivistas, fugindo da representação clássica e da identificação com a mulher brasileira. Porém, este problema de identificação da alegoria com as brasileiras foi resolvido de forma prejudicial para a República. O desapontamento quanto aos rumos que a república brasileira A alegoria da república francesa, junto à 'irmã mais nova' brasileiratomara foi expresso pelos caricaturistas, que passaram a utilizar a figura feminina para ridicularizar a República. Prostitutas e velhas cansadas, essas eram as alegorias que representavam o resultado da república no Brasil. A representação feminina que não obteve caráter pejorativo, que se identificou com o povo, foi promovida pelo governo: o culto à Virgem Maria, representado na imagem de Nossa Senhora Aparecida. Além das profundas raízes católicas, essa imagem é negra, identificando-se melhor com a mulher brasileira. A batalha por essa alegoria no Brasil terminou com a vitória do religioso sobre o cívico.

Parte-se agora para a discussão da formação dos símbolos nacionais mais evidentes e de uso obrigatório: a bandeira e o hino. A batalha decisiva agora se volta para a representação oficial da República. Os positivistas conseguiram o mais importante: a aceitação popular. Mantendo-se algumas características da antiga bandeira, era mantida também a tradição cultural e cívica da população. Além disso, anunciava um futuro próspero com a divisa 'A pátria', de Pedro Bruno“Ordem e Progresso”. Dessa forma, foi feita a ligação entre o passado, o presente e o futuro. No caso do hino, a vitória foi completamente da tradição. O hino composto por Francisco Manuel da Silva já se enraizara na tradição popular, tornando-se um símbolo da nação. O autor conclui que a República só teve êxito quando se voltou às tradições mais profundas, mesmo algumas sendo alheias às suas características.

Assim, José Murilo de Carvalho analisou as diversas formas e meios para a criação de símbolos, alegorias e rituais que visavam legitimar a República. Para tanto, precisou ir além da historiografia e dos documentos oficiais, utilizando-se de periódicos, registros de depoimentos, pinturas e esculturas, analisando-os de forma a conceber a visão de mundo das diferentes classes sociais e ideológicas, compreendendo a visão geral daquela época, contribuindo na compreensão da atual. Como a maioria das ideias e símbolos utilizados é importada, o autor buscou explicar historicamente a formação destes em seus países de origem, dando ênfase ao positivismo; isso se deveu à habilidade dos positivistas em articular símbolos, elemento interessante ao autor em sua proposta. Particularmente, apreciei as análises sobre as pinturas, caricaturas e esculturas, nas quais cada detalhe é carregado de significado. Conclui-se, portanto, que os esforços das correntes ideológicas republicanas falharam na sua tentativa de criar um imaginário sobre a República. A ausência popular na proclamação criou uma grande barreira para a legitimação do novo regime, o qual obteve êxito apenas quando se voltou à tradição religiosa e imperial. Após essa contribuição do autor, pode-se entender melhor o fato de não lembrarmos porque não precisamos trabalhar no dia 15 de novembro e por que já nascemos amando a bandeira nacional, como se ela já existisse por si mesma. Porém, um mito, mesmo quando muito forte, deve ser constantemente alimentado. Enquanto somos crianças em idade escolar, nossa professora nos lembra todo ano da importância de Tiradentes, e confundimos sua figura quando ela nos diz que ele morreu por nós; contudo, quando crescemos, esquecemos por que existe o feriado de 21 de abril, pois ninguém nos lembra de seu significado. E fazemos um churrasco.

Referência bibliográfica:
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O céu sobre Berlim

“Ninguém tem a intenção de construir um muro”, afirmou o chefe de governo e secretário-geral do Partido Socialista Unitário da República Democrática Alemã (RDA), Walter Ulbricht, em junho de 1961. Dois meses depois, no entanto, ele foi construído.
No dia 12 de agosto, o Conselho de Ministros da RDA decidiu cercar as fronteiras com a República Federal da Alemanha, “para impedir a atividade inimiga das forças revanchistas e militares”. No dia 13, começou a construção do Muro de Berlim, que entrou para o linguajar dos alemães orientais como “muralha de proteção antifascista” e para os ocidentais como “o muro da vergonha”. Na justificativa oficial, porém, não foi citada uma palavra sobre o êxodo da população alemã oriental para o oeste.
O chefe do governo Walter Ulbricht encarregou Erich Honecker, então secretário do Conselho Nacional de Defesa, de cercar a fronteira. À 1h05 da noite de 13 de agosto de 1961, apagou-se a iluminação de rua no Portão de Brandemburgo, o cartão de visita da cidade.
Aproximadamente 20 mil policiais da Guarda de Fronteira, soldados, funcionários do Stasi (o poderoso serviço secreto e de segurança da RDA), além de milícias de trabalhadores, avançaram rumo à demarcação do setor ocidental. Cercas de arame farpado e blocos de concreto armado foram instalados. Onde isso ainda não era possível, tanques bloquearam a passagem. A cerca ao longo dos três setores ocidentais de Berlim dividiu ruas, cemitérios, linhas de bonde e trens, propriedades e até famílias, da noite para o dia. Seis horas depois, a fronteira, contornando os 155 km de Berlim Ocidental, estava toda cercada. A população da Alemanha Oriental não podia mais sair. Posteriormente, estabeleceu-se um rigoroso sistema de autorização de viagens ao Ocidente, que continuaram sendo um sonho para a grande maioria dos alemães orientais.
O Muro de Berlim, propriamente dito, tinha até 4,20m de altura em alguns trechos. Uma segunda fortificação foi construída posteriormente. Ao seu redor foi demarcada uma faixa de segurança, também conhecida como “faixa da morte”, que chegava a ter cem metros de largura. Ali se encontravam cerca de 300 torres de vigilância, 20 bunkers (instalações antiaéreas subterrâneas), 260 canis e inúmeros postes com holofotes. Os soldados receberam ordem de atirar e impedir qualquer fuga “usando todos os recursos disponíveis”. Por trás do Muro de quatro metros de altura, havia uma segunda barreira, cercas com alarme e profundas trincheiras antiveículos. Holofotes, cães e minas completavam o esquema de segurança que fazia do Muro uma fortaleza praticamente inexpugnável.

Por quase três décadas os alemães viveram esse conflito entre o real e o imaginário, o concreto e o abstrato acerca da separação de dois mundos. Os efeitos desses muros (que dividiam os limites geográficos e as mentes das pessoas) influenciaram a - talvez - maior obra do cineasta alemão Wim Wenders, em um filme conhecido aqui como "Asas do Desejo" - título já oriundo da tradução em inglês, o qual já perde seu sentido mais filosófico.
O título original, Der Himmel Über Berlim (Alemanha-França, 1987) já expõe a interpretação do autor sobre o muro: "O(s) céu(s) sobre Berlim". Afinal, do céu não há separação entre mundos; lá de cima, é possível se ter acesso a tudo e a todos.
Acesso este disponível aos anjos Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), que exploram a Berlim ocidental poucos anos antes da queda, analisando o comportamento e os sentimentos humanos e, sem deixar de cumprir seu papel celeste, compartilham entre si observações sobre gestos e momentos despercebidos pelos mortais.
Damiel, Cassiel e os outros anjos só podem ser vistos por crianças (ainda não massacradas pela dura rotina da Alemanha dividida), podem estar em qualquer lugar a qualquer momento e... enxergam em preto-e-branco! Ou melhor, sempre que o Wim Wenders nos dá a visão do anjo, a película atende somente à escala do cinza. Acredito que o cineasta lança mão desse recurso para dar ao espectador a noção de que os anjos não podem ter sensações físicas e emocionais como os mortais.
O encontro entre dois mundos se dá quando Damiel conhece e se apaixona por Mariom (Solveig Dommartin) uma trapezista de um circo decadente, que vê sua Companhia partir enquanto ela fica na solidão. É incrível a forma como Wenders trabalha nosso imaginário sobre dois mundos separados por uma força maior: enquanto Mariom, sozinha em seu quarto, perde-se em pensamentos sobre sua vida, Damiel a observa e, por vezes, acredita que a trapezista percebe sua presença. Os personagens, tão próximos no cenário, conseguem nos transmitir o quão distantes estão entre si.
Assim, esse amor platônico às avessas continua, até que Damiel conhece um ex-anjo e percebe que é possível tornar-se um mortal (passar para o outro lado do Muro) e resolve cair. Até aqui, vale a observação de que o filme já está sendo expresso em três línguas: alemão, francês (origem do circo) e inglês (pois o ex-anjo é um cineasta norte-americano). Afinal, os idiomas também são uma fronteira que, neste caso, parece não existir para os personagens.
Damiel cai e tudo se torna colorido. Mais irônico é que o agora mortal, como uma criança, não conhece as cores, aprendendo-as através das pixações do Muro de Berlim. Maravilha-se com a dor e com o gosto do sangue após sua queda e delicia-se com um café bem quente, que um homem (mortal, já acostumado com as belas pequenas coisas da vida), num ato de gentileza, paga ao novato humano.
Damiel encontra sua amada num show de Nick Cave, e a bela trapezista parece já conhecê-lo há tempos (assim como os antigos conterrâneos alemães, antes de sua separação) e a intimidade dos dois impressiona e faz-nos acreditar que o Muro nunca existiu, pois a distância que havia entre os dois não poderia ser definida nem como física, nem como temporal.

(...)

No dia 9 de novembro de 1989, o jornalista italiano Riccardo Ehrman fez uma pergunta que mudou o mundo. Em uma coletiva de imprensa, na qual a RDA divulgava sua nova lei de viagens, Ehrman obteve do porta-voz do governo, Günter Schabowski, uma declaração que não havia sido planejada pelo Conselho Ministerial: a de que viagens para o Ocidente seriam permitidas a partir daquele exato momento. A agência italiana de notícias ANSA, para qual Ehrman trabalhava, publicou exclusivamente a notícia de que o Muro havia caído. As imagens do evento rodaram o mundo. Logo, milhares de cidadãos da RDA correram para os postos fronteiriços.
Naquele dia fatídico, Riccardo Ehrman chegara atrasado ao evento. Como não havia mais cadeiras, agachara-se bem à frente de Schabowski, com o bloco de notícias no joelho. Schabowski proferiu então a declaração do Conselho Ministerial de que “viagens particulares ao exterior poderiam ser requeridas sem condições prévias – motivos ou relações de parentesco. A autorização seria fornecida em curto prazo. Viagens permanentes poderiam ser efetuadas a partir de qualquer posto fronteiriço da RDA para a RFA ou para Berlim Ocidental”.
A pergunta de Riccardo Ehrman foi: “Quando isso entra em vigor?”. Schabowski respondeu com a incerteza de um porta-voz: “Pelo que eu sei... imediatamente”. Foi o suficiente para que Ehrman se levantasse e deixasse o recinto. No seu artigo, escreveu: O mundo mudou. Hoje. Muitas agências falaram apenas numa simplificação da lei de viagens. Mas para Ehrman aquilo tinha um significado claro: o Muro havia caído.
Na noite do dia 9 de novembro de 1989, por volta das 22h, uma multidão pacífica marchou em direção aos pontos de passagem que havia no Muro de Berlim querendo ir para o outro lado. Os guardas da fronteira, com o inesperado de tudo aquilo, sem saber o que fazer, sem ordens, não tiveram outra alternativa senão em levantar as cancelas e deixar o povo passar.

Assim, dois anos antes da real queda do Muro de Berlim, Wim Wenders nos presenteava com a queda de Damiel, o anjo que ultrapassou a barreira entre o celeste e o mundano, aproximando dois mundos antes separados fisicamente, mas unidos pelo sentimento e pela vontade de pertencer a um só lugar.


Referências bibliográficas:
ARRUDA, José Jobson de A.; PILETTI, Nelson. Toda a História. São Paulo: Ática, 1997.
BAILBY, Edouard. Berlim entre duas Alemanhas. Rio de Janeiro: Leitura, 1962.
ELIAS, Norbert. Os Alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
GERHARDT, Alfredo. O Muro de Berlim e as duas Alemanhas. São Paulo: Fulgor, 1963.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.