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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Professor pensador, Professor autor

Texto escrito para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp), sobre as vídeo-aulas do Prof. Gabriel Perissé (Universidade Nove de Julho).

Em outra postagem deste blog, foi analisada a questão do Professor leitor na complexidade da constituição docente. Entretanto, sabe-se que o ato de ler leva a outras dimensões, como o pensar e a autoria. A primeira está diretamente ligada ao exercício da curiosidade, da reflexão e do diálogo com o extramental, que nos levam ao momento das decisões.
A etimologia¹ de "curiosidade" leva ao prefixo cur- (do latim, "ver") e ao sentido de "diligência em buscar uma coisa, desejo de conhecer". Assim, o Prof. Gabriel Perissé (Uninove), citando o filósofo e educador argentino Walter Kohan, aponta que "é o choque do imprevisto que nos obriga a pensar, que nos comove inteiramente, que nos deixa perplexos, que nos leva a problematizarmo-nos, a pensar o que até agora não podíamos pensar".

Pensar leva-nos a sermos autores, seja de um livro, de uma pintura, de um filme, ou mesmo de uma boa aula. Ler, pensar, ser autor permite questionar, transforma ideias em concepções e, principalmente, liberta.
Teorias pedagógicas, conteúdos, informações da mídia, material da internet e outras fontes de informações não podem ser utilizadas em sala de aula sem antes passarem pelo toque pessoal do Professor: a autonomia docente não se conquista sem um estilo de ensinar. O sociólogo e educador Pedro Demo afirma que "o mínimo que se exige é que cada professor elabore com mão própria a matéria que ministra" (citado por Perissé). "Tal elaboração será uma síntese barata, se for reprodutiva, mas será criativa, se acolher tonalidade própria reconstrutiva."
Flautista, de Roberto Weigand
Assim, quanto mais o Professor lê, mais sua curiosidade aumenta e, consequentemente, o ato de pensar fica mais elaborado, permitindo que tenha mais autonomia no seu ambiente de trabalho (principalmente em relação a seus "superiores") e crie recursos didáticos mais interessantes, com sua personalidade. Tais materiais não se restringem aos que são utilizados apenas na sala de aula tradicional: atualmente, a rede mundial permite alcançar horizontes que vão muito além, mantendo contato com alunos de forma presente ou à distância. Concluindo com metáfora um tanto distorcida, muitas vezes queremos ser como o Flautista de Hamelin, conduzindo os alunos de forma harmônica. Entretanto, o Professor que lê, pensa e cria pode até ser o condutor, mas sabe que suas aulas permitirão aos alunos desenvolver sua autonomia e fazer suas escolhas ao longo do caminho.

Eduardo Carvalho
Polo de Praia Grande

¹ Fonte: Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

O Professor leitor na complexidade da constituição docente

Texto para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp), sobre as vídeo-aulas da Profª Silvia Colello (Faculdade de Educação USP) e do Prof. Gabriel Perissé (Universidade Nove de Julho).

A profissão docente sempre foi constituída de forma muito complexa, pois está diretamente ligada a outros fatores, como a construção de valores, a formação do cidadão ético e do profissional preparado para o mercado de trabalho. Entretanto, do ponto de vista negativo, tal complexidade é também atribuída, por diversas vezes, ao chamado fracasso escolar.
Historicamente, sabe-se que até a década de 70 o fracasso escolar era considerado como culpa exclusiva do aluno e, portanto, acreditava-se ser importante investir nas competências dos professores para reverter as condições dos estudantes. A partir dos anos '80 - com os vários estudos nas áreas social, pedagógica, psicológica, biológica, entre outras - a escola passou a ser vista como produtora do fracasso, ou seja, muda a compreensão do problema, muda a compreensão do papel do Professor, mas permanece a lógica da formação: é competência do Professor resolver a situação.
Atualmente, não é mais possível atribuir a culpa do fracasso escolar a apenas um fator, pois está ligado a um conjunto de fatores sociais, culturais, econômicos, políticos, internos e externos ao ambiente escolar. Porém, apesar do discurso considerar responsabilidade de todos (família, escola, comunidade, poder público etc.) a busca pela solução do fracasso escolar, a prática ainda atribui ao Professor um grande peso a ser carregado, de forma árdua e, muitas vezes, solitária.
Como se constitui, então, o profissional docente? Essa constituição não se restringe ao curso superior, mas a fatores intrínsecos (história de vida, visão de mundo, formação ética, experiências docentes) e extrínsecos (formação acadêmica, local de trabalho, salário etc.), que influenciam a profissionalização e geram uma profissionalidade, ou seja, a forma pessoal de se exercer a profissão.
Durante a prática docente, a visão de mundo do indivíduo e a cultura profissional, juntamente com os saberes aprendidos e os saberes vividos, desenvolvem as concepções de aluno, de aprendizagem do papel do Professor, além de uma série de conflitos, como os conhecimentos pedagógicos muitas vezes destoando dos conteúdos acadêmicos e os momentos de satisfação competindo com a insatisfação - dependendo das condições objetivas (de trabalho) e das condições subjetivas (sentimentos, incertezas, receios).
Diante dessa enorme quantidade de fatores que influenciam a constituição docente, os professores buscam se afirmar através das perspectivas do conhecer, viver, lutar, refletir: é necessário disponibilidade pessoal para renovar o trabalho, colocar-se como sujeito do conhecimento, que define caminhos e criar alternativas, com luta pela valorização do ensino e a construção de um trabalho coletivo. Essas perspectivas ajudam a enfrentar os desafios em face da realidade, a difícil construção de um ensino de qualidade e a valorização do ensino, pois sua desvalorização já está gerando dados que apontam o desinteresse dos jovens pelo magistério ou, muitas vezes, os professores recém-formados tinham outros sonhos, mas sua realidade social e econômica levou à profissão docente, aumentando os riscos de comprometer essa carreira. Ultimamente, o governo federal promove campanhas publicitárias de valorização do professor, diante da queda do número de profissionais formados na área docente.



Existe um abismo entre a produção teórica e a prática pedagógica. Dessa forma, o Professor faz o papel de ponte, buscando compreender, aplicar e, principalmente, problematizar e refletir para uma maior proximidade entre os dois lados. Entretanto, a dimensão pessoal do trabalho do Professor traz outras dificuldades que parecem aumentar o tamanho desse abismo: falta de autonomia, sobrecarga, desmotivação, esgotamento ao longo da trajetória profissional.
Percebe-se, portanto, o tamanho da complexidade da constituição docente. Em meio a tantas dificuldades, é conhecido que muitos professores gostam do que fazem, pois não se podem deixar de lado os momentos em que o pessoal e o profissional se satisfazem ao mesmo tempo, ao ver o desenvolvimento dos alunos. Qual a dica para essas pessoas que são apaixonadas (lembre-se que "paixão" também está ligada ao sofrimento) pela sua profissão?

Aqui, por enquanto, será apontada a leitura como um dos caminhos para a libertação dos professores. Essa afirmação parece um tanto romântica, mas é preciso considerar que toda leitura é um aprendizado à distância: uma forma de aproximação com as diversas realidades. A leitura, além de expandir os horizontes, também contribui na tarefa de ensinar, pois não é possível esperar que os alunos gostem de algo que não é praticado pelos seus próprios professores.
Gabriel Perissé (USP), citando um artigo de Maria Helena Martins (Encruzilhadas de leituras) aponta que "há poucas referências a professores que demonstrem uma ligação especial com livros e leitura. (...) Intuem a distância dos professores da prática pessoal da leitura, o que nos parece proporcional às dificuldades destes de exercerem a função de mediadores: sobra-lhes a tarefa de obrigar os alunos a ler". Como mudar essa situação?
Sabe-se que a profissão docente dificilmente permite separar o sujeito profissional do sujeito pessoal. Em meio a tantos relatórios, planejamentos, avaliações, reuniões e cobranças das mais diversas naturezas, é preciso exigir espaço (e tempo) para a leitura, prática inquestionavelmente relevante para a docência. Não se fala aqui apenas sobre livros de temas pedagógicos, mas qualquer tipo de leitura contribui para o enriquecimento do professor, inclusive pessoalmente.
A experiência da leitura pode questionar, ampliar, revolucionar, aperfeiçoar nossa visão de mundo. E nos fazer criar um sistema pessoal de convicções. Se você é professor(a) e teve tempo de chegar ao final deste texto, agradeça à primeira pessoa que lhe alfabetizou e aos demais que ajudaram na sua formação, os quais foram ou ainda são seus colegas de profissão. Com certeza, há muitas crianças, jovens (e até adultos) que gostariam de lhe agradecer também.

Eduardo Carvalho
Polo de Praia Grande


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sábado, 30 de junho de 2012

Modelos de ensino e relação entre professor e aluno

Texto baseado nas vídeo-aulas da Profª Silvia Colello (Faculdade de Educação USP) e do Prof. Gabriel Perissé (Universidade Nove de Julho), para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Dentre as formas de compreender o mundo, existe o fixismo (no qual as permanências se perpetuam) e o transformismo (relativo às constantes mudanças). Ao primeiro está ligada a corrente filosófica do empirismo que, da perspectiva educacional segundo a Profª Silvia Colello (USP), pode ser definida como uma conversão pelo arranjo de condições para o conhecimento: a escola é agência sistematizadora de uma cultura pré-estabelecida. O Professor é representante do saber e transmissor do conhecimento. Esta prática pedagógica gera um ensino fragmentado sob a forma de dar e tornar o conteúdo independente da realidade do aluno, numa pretensão de controle do processo e homogeneidade no desempenho.
Ainda atrelado ao conceito do fixismo está o inatismo, ou seja, a revelação paralela ao desenvolvimento, respeitando a natureza do indivíduo. O Professor é facilitador da aprendizagem numa prática não diretiva, centrada na autodireção do aluno e no contrato feito entre ambos.
Por outro lado, agora ligado ao transformismo, foi desenvolvido o construtivismo: um conjunto de intervenções significativas que possam incidir sobre o processo de desenvolvimento e aprendizagem pelo enfrentamento de situações problema e pela interação com o sujeito cognoscente. Aqui o Professor deve buscar a sintonia entre os processos de ensino e aprendizagem, organizando-os em função do sujeito aprendiz e atuando como problematizador e desestabilizador em situações conflitivas, de forma a se valer dos erros como oportunidades pedagógicas. Tal prática permite a ampliação das possibilidades de mediação e de conhecimento, respeitando o tempo de aprendizagem, a diversidade de conhecimentos e a heterogeneidade cultural, realizando a aproximação entre escola e vida por meio de projetos, resolução de problemas e práticas de pesquisa.
 
Conceitos, de Roberto Weigand.
Percebe-se, portanto, que todos esses modelos de ensino podem se tornar ineficientes se não for considerada a relação entre professor e aluno. Nas experiências reversíveis, ou bidirecionais, duas realidades se unem. Continuam sendo diferentes, mas uma não é externa em relação à outra.
O encontro não se faz por mera aproximação física. Na definição do pensador espanhol López Quintás, citada pelo Prof. Gabriel Perissé (Uninove), o encontro se realiza quando entramos em jogo com uma realidade que tem algum tipo de iniciativa, promovendo-se um enriquecimento mútuo. Um objeto pode ser usado, manipulado, descartado. Quando é possível realizar o encontro, em lugar de objeto encontramos um âmbito.
Transforma-se uma sala vazia numa sala de aula quando, mediante o encontro, cria-se um âmbito, um espaço em que as liberdades não entram em choque, mas se tornam ocasião para o diálogo e outras experiências criativas.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande


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sexta-feira, 29 de junho de 2012

O papel do Professor na mediação em diversidade cultural

Informações retiradas das vídeo-aulas da Profª Rosa Iavelberg (USP), para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Um dos melhores caminhos para a mediação cultural é a Educação em Arte. Através dela, é possível desmistificar a Arte como objeto acessível a poucos, distante do cotidiano, com a promoção da consciência sobre o valor da Arte na sociedade e na vida dos indivíduos.
De acordo com a Profª Rosa Iavelberg (USP), o aluno aprende com produções próprias, com a dos pares e a partir do conhecimento sobre a produção sócio-histórica da Arte, de forma a desenvolver a auto estima do aprendiz porque possibilita a expressão de cada um, construída com base em saber fazer, saber interpretar e valorizar a Arte de modo autoral em um contexto de aprendizagem compartilhada.
Os temas transversais - questões sociais da atualidade - associam-se às poéticas e outras esferas importantes aos contextos educacionais. São ensinados com as obras associados a conteúdos plástico-formais, pois a Arte inclui a pessoa do aprendiz, suas características culturais e potencial de transformação da própria condição e lugar de origem.
A formação cultural mediada pelo Professor promove a integração social, aparoxima-se ao estudante, anima-o a frequentar a escola porque pode manifestar-se e compartilhar suas experiências com os pares e apresentá-las à comunidade escolar ou compartilhá-las em redes sociais.
Iavelberg  afirma que a Arte pressupõe práticas de educação diferenciadas, reconhece a cultura como conteúdo de poder transformador e formador  da identidade de educando. Dessa forma, cabe aos Professores selecionar Arte de qualidade para a identidade do aluno reconhecer-se nessas referências e na força dessas criações. Também é necessário trabalhar conteúdos para o estudante perceber a importância da autoria, do protagonismo nas formas, ideias, ações e escolhas em Arte; trabalhar a Arte com sentido na vida das pessoas e na sociedade.
Para tanto, é necessário ao Professor conhecimento sobre Arte e Educação em Arte, sobre o desenvolvimento artístico no fazer e desenvolvimento da compreensão estética e participação em eventos artísticos e experimentação em práticas artísticas.

Outro caminho diretamente ligado à Educação em Arte é ensinar sobre a diversidade cultural, ou seja, respeitar o direito dos povos de manifestar, documentar e preservar sua cultura. Assis, há promoção do respeito entre os povos e consciência de que as culturas são diversas e estão em mudança permanente.
A Profª Iavelberg  aponta que os meios de expressão e comunicação presentes nas diversas culturas refletem os diferentes contextos históricos e sociais. A aprendizagem sobre a diversidade cultural ocorre quando o Professor promove a criação e a fruição artísticas, para o aluno aprender sobre a diversidade expressa na Arte de diferentes tempos e lugares.
Cabe ao Professor considerar as influências culturais na arte de cada povo e sua especificidade política, social, religiosa, histórica, econômica, ambiental. Em Educação, os recortes de conteúdos e temas no planejamento da História da Arte tem papel fundamental na Educação orientada ao ensino da diversidade cultural na escola.
Estudar o sistema simbólico de cada lugar expresso nas lendas, mitos, festas, contos de tradição, música, arquitetuta, costumes, bem como valorizar a integração da produção de cultura local, estabelecendo relações com a História da Arte mais abrangente podem, mais uma vez, recuper o gosto por frequentar a escola, porque dizem respeito direto à identidade dos educandos, sua história, memória, e universo de experiência.
Calvin & Hobbes, de Bill Watterson (26-06-1993).

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O papel do Professor ao longo da trajetória escolar

Texto baseado nas vídeo-aulas da Profª Silvia Colello (Faculdade de Educação USP), para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Atualmente, o indivíduo comumente chamado de educando, mesmo de forma inconsciente, precisa desenvolver inúmeras habilidades: criticidade, responsabilidade, criatividade, inserção social, consciência, ética, competência, profissionalização, autonomia etc. Além disso, no decorrer desse processo, pesam diversos fatores (externos ou internos à sala de aula): intolerância, DSTs, corrupção, violência, gravidez precoce, marginalidade, drogas, alcoolismo etc.
De forma geral, este indivíduo não tem completa noção dessas responsabilidades e não percebe o quanto pesam os estímulos da sociedade. Diante dessa complexa situação, o Professor se vê frente a um aparente paradoxo: instruir ou educar? Tais ações são complementares, mas tornam-se excludentes "quando a Educação se submete ao ensino" - de acordo com as afirmações da Profª Silvia Colello (FEUSP). Nesta modalidade, já obsoleta mas ainda muito praticada, acredita-se que a somatória de todos os saberes resulta num indivíduo educado. Atualmente, a prática mais aceita requer que o ensino se submeta à Educação, quando se desenvolve um projeto educativo em função do qual todos os saberes se justificam.
Este Projeto - complementado pelos termos "Político" e "Pedagógico" (PPP) - pertence à macro esfera e necessita de uma sintonia entre a escola e a sociedade, contida nas situações cotidianas da escola (as chamadas micro esferas). Tal projeto, portanto, busca os principais objetivos da Educação, a saber: desenvolvimento, aprendizagem, personalização, socialização, humanização, libertação, entre outros.

De maneira geral, os PPPs das escolas brasileiras contêm orientações de estudo, ações contra drogas, recuperação contínua, orientação sexual, adaptações de ciclo etc. De qualquer forma, toda ação educativa deve caminhar junto à trajetória escolar, perpassando o questionamento sobre o que a escola representa para o aluno e qual o papel do Professor nas sucessivas etapas da escolaridade.
Na Educação Infantil, para os pequenos educandos, a escola aparece como espaço do brincar. É o período de adaptação, ampliação das referências, dos saberes, das linguagens e das relações. Aqui, segundo a Profª Colello o papel do Professor é de investimento nas esferas afetiva, funcional, cognitiva, linguística e de ajustamento pessoal. Nos primeiros anos da Educação Fundamental, as crianças já veem a escola como espaço do aprender. Auto conceito, motivação para aprender, adaptação ao ritmo da escola, novos critérios de convivência social são necessários nesta fase, e cabe ao Professor o apoio funcional, fortalecimento do vínculo com o saber, estimulação dos valores que regem a convivência social. A escola como espaço plural é percebida nos anos seguintes, onde se deve desenvolver o auto conceito acadêmico, aprender a aprender, a organização, a autonomia e a disponibilidade para lidar com dificuldades. O fortalecimento da relação aluno-escola pelas dimensões afetiva, metodológica, funcional, cognitiva e social faz parte do ofício do Professor.
No segundo ciclo do Ensino Fundamental (até o 9º ano) a escola localiza-se entre tantos outros mundos disponíveis ao educando, enquanto no Ensino Médio este indivíduo encontra-se entre o reconhecimento da escola e a disponibilidade para investir na aprendizagem Lidar com crises, conflitos, projetos de vida, cobranças de desempenho, opção profissional, autonomia, redefinição da identidade e de valores fazem parte de sua evolução enquanto cidadão, e aqui o Professor aparece para fornecer apoio, orientação, sensibilização, conscientização sobre aspectos da vida e responsabilidade social.
Calvin & Hobbes, de Bill Watterson (19-11-1993).
Assim, esse processo evolutivo (institucionalização - escolarização - preparação para a vida social) deve ser considerado nas ações educativas ao longo da trajetória escolar. Identificar e agir em falhas nesse desenvolvimento pode contribuir no ofício do Professor e na formação do educando enquanto cidadão.


Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A potência do trabalho em rede e ações em comunidade

Informações baseadas nas vídeo-aulas da Profª Patrícia Grandino (USP) e do Prof. Edson Azevedo, para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

O conceito de comunidade vem recebendo novas abordagens devido às constantes mudanças e revisão de valores na contemporaneidade: é necessário tornar-se cidadão do mundo globalizado sem perder referências e pertencimento à comunidade de origem. Além disso, nesta realidade também dominada pelo capitalismo, faz-se necessário conciliar a competição que estimula a cooperação que reforça e a solidariedade que une.
A comunidade é uma realidade social que garante a permanência de laços sociais mais estreitos, são locais de afirmação da identidade de sujeitos e grupos, com presença de afetos e sentimentos de pertença e potencial de solidariedade pelo reconhecimento recíproco (família, associações, igreja). Assim, podem ser consideradas espaços privilegiados de garantia e exercício da cidadania.
O trabalho em rede, já abordado em outras postagens deste blog, permite potencializar os recursos da comunidade, fortalecer a implicação dos diferentes atores, problematizar as questões emergentes da comunidade coletivamente e identificar estratégias de enfrentamento compartilhadas.

Uh-Batuk-Erê
Um exemplo de ação em rede numa comunidade é o projeto Uh-Batuk-Erê, apresentado pelo Prof. Edson Azevedo. Realizado numa escola municipal de São Paulo, tem como objetivo estabelecer diálogo entre os diversos saberes e tradições, identificando as etnias que formam o povo brasileiro.
Isso foi possível promovendo a arte como mediadora do multiculturalismo presente na identidade brasileira, orientada pela pedagogia da autonomia, da emoção do saber fazer consciente.
Seguindo os conceitos de Educação comunitária, foram realizadas oficinas, fóruns, trilhas culturais e de observação do entorno, apresentações, entre outras ações que permitem o desenvolvimento do protagonismo, quando os alunos trazem a comunidade para dentro da escola.
O resultado é um diálogo permanente entre o sentimento e ação, num processo contínuo de formação, que aproxima seus componentes. Perceberam-se melhoras na relação como grupo, atuação e envolvimento no espaço escolar, compartilhamento de ações coletivas, encontros comunitários, redução de preconceitos e desigualdades. Resultados concretos e mensuráveis, ressignificando a escola como elemento agregador, envolvendo a comunidade, valorizando o saber popular associado ao sistematizado, construindo a cidadania com emoção e conhecimento, formando e fazendo história.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande


sábado, 10 de setembro de 2011

As revoluções educacionais

Esta postagem é baseada na vídeo-aula ministrada pelo Prof. Ulisses Araújo (USP), para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC). Utiliza como referência a obra de José M. Esteve, A terceira revolução educacional (editora Moderna, 2004).

Entende-se que até os dias atuais existiram três revoluções educacionais. Dentro do processo histórico ocorrido entre essas mudanças, pode-se perceber um legado ainda existente na escola e na sociedade contemporânea.
A chamada primeira revolução educacional tem suas origens no Egito Antigo, de onde se tem relatos das "Casas de instrução", onde os descendentes dos faraós, nobres e sacerdotes eram orientados pela figura do preceptor, aquele que tem a missão de instruir apenas um aluno ou um pequeno grupo deles. Esse tipo de educação encontra-se em outras partes do mundo antigo, por exemplo na Grécia, onde se sabe que no período do Império Macedônico o filósofo Aristóteles foi preceptor do futuro imperador Alexandre, o Grande. Esta relação individualizada de educação pode ser ilustrada por uma obra de Chardin que tem como título A jovem professora, no qual observa-se essa educação exclusiva para apenas uma criança.

CHARDIN, Jean-Baptiste Simeón. A jovem professora, 1736.
National Gallery, Londres.
Considerando que esta pintura data de 1736, conclui-se que este tipo de educação permaneceu por muito além da Antiguidade, permancendo até os anos finais do período Moderno.
Dessa forma, historicamente pode-se explicar como se deu a segunda revolução, a partir do final do século XVIII no processo de consolidação dos Estados Nacionais europeus, quando houve a necessidade de se estabelecerem como nações, procurando suas próprias leis, justiça, governo e uma certa separação em relação ao poder da Igreja. O marco incial para essa nova revolução educacional seria com um decreto do Rei Frederico Guilherme II da Prússia, em 1787, definindo que educação deveria ser pública e de responsabilidade do Estado. Apesar do termo "pública" esse termo não pode ser entendido da mesma forma que nos dias atuais, pois inicialmente atendia somente a alunos do sexo masculino, numa pequena quantidade e situação sócio-econômica homogênea. Assim, na Prússia e em outras nações europeias dos séculos XVIII e XIX não se podia esperar encontrar uma sala de aula com alunos, por exemplo, de famílias rurais, negros ou com necessidades especiais. Apesar do Estado tomar esta responsabilidade para si, esta educação legitimou a exclusão em diversos níveis.

Fonte: Blog "Para entender a história..."

   
Ademais, como se pode perceber nas fotografias, o molde da sala de aula ainda era de um local fechado, como os alunos enfileirados e o professor na posição de detentor do conhecimento, transmitindo-o às crianças. Naquele contexto histórico, essa definição da profissão do magistério é compreensível, pois o acesso ao conhecimento era econômica e culturalmente muito resrito. Entretanto, esse formato de educação se vê de forma muito comum nas salas de aula atuais.
Assim, ainda é muito difícil explanar sobre a terceira revolução educacional sem pensar que ela ainda não é totalmente aplicada, apesar dos esforços teóricos e das tecnologias disponíveis. Essa educação, buscada desde o início do século XX, pretende a democratização e a universalização. Na prática, atenderia às necessidades da "sociedade do conhecimento" e da economia voltada (prioritariamente) ao terceiro setor, além de ser politicamente correta e fazer justiça social. Entretanto, essa educação pretendida ainda encontra inúmeros desafios, que podem ser simplificados na conciliação entre acessibilidade e equidade no espaço escolar, mantendo-se a qualidade. Resumindo, precisa-se reinventar a escola, incluindo no mesmo ambiente as diferenças sociais, econômicas, étnicas, religiosas, físicas, psíquicas etc., de forma que todos tenham acesso qualitativo à educação. Além disso, a figura do professor precisa ser revista, pois o acesso à informação democratizou-se com a novas mídias (principalmente a Internet), necessitando agora de um orientador que ajude os educandos a construir conhecimento.
Ainda falando em desafios, existe a situação em que o referido acesso qualitativo à educação esbarra no quantitativo, pois necessita-se buscar soluções para salas de aula lotadas, convivência, atendimento especial, satisfação de necessidades básicas (alimentação, vestuário, higiene, saúde) num espaço educacional que precisa ultrapassar os muros da escola.
Finalizando, reproduz-se aqui uma idealização de sala de aula que pode ser acessada no site Uma Cidade Interativa (Abril Educação):


É interessante perceber como a maioria das pessoas reage à essa imagem, interpretando que a sala de aula "está uma bagunça", com os "alunos fazendo o que querem" e "quase ninguém presta atenção à professora". Mas, olhando com mais atenção e relacionando às ideias aqui expostas, reafirma-se a noção de idealização mais próxima à educação democrática e universal: alunos com características diferentes, mas tendo igualmente acesso à busca pelo conhecimento, num espaço com estrutura, recursos didáticos, orientação de uma educadora, usufruindo da liberdade para atender aos interesses e necessidades de todos.

Eduardo Carvalho de Almeida
Pólo de Praia Grande

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Homero: nosso primeiro professor?

(Contribuindo para a blogagem coletiva - Professores do Brasil)

O conhecimento da educação antiga constitui-se numa das fontes para um melhor conhecimento da cultura contemporânea. Entender sua tradição pedagógica, seu regime e suas aspirações educacionais faz-nos compreender melhor as práticas e ideais educativos atuais, bem como analisá-los e questionar suas estruturas.
Nessa busca, é relevante consultar um livro de 1966, do até então professor da Sorbonne, Henri-Irínée Marrou: História da Educação na Antiguidade. Utilizando a 4ª edição de 1975, nota-se que o livro, como descrito em sua contra-capa, é “um trabalho de síntese erudita, que incorpora e coordena os resultados das mais recentes disquisições efetuadas pela investigação moderna [conforme sua época]”, no campo de conhecimento do tema. Comprova-se essa citação com a vasta e diversa bibliografia, contendo obras que vão desde a Ilíada e a Odisséia de Homero até as contemporâneas do autor, sem limitar-se apenas a fontes sobre educação.
Busto de Homero, cópia romana do séc. II a partir do original grego (séc II a.C.)A obra inicia-se afirmando que Homero foi a origem da cultura e educação gregas, com uma análise da Ilíada: citando a época em que foi escrita, bem como o tempo a que se remete (a imagem de uma idade heróica, anterior a de Homero) e seu caráter poético e filológico.
Segundo o autor, a cultura grega foi originalmente privilégio de uma “aristocracia” de guerreiros (anacronismos à parte, “cavalheiros”, como o autor cita), análogos ao cavaleiros medievais em seu refinamento e habilidade. Portanto, é necessária uma educação adequada a essa elite, tendo como figura típica Quirão, o centauro educador de Aquiles. Essa pedagogia é baseada na relação entre pupilo e mentor (esse último como confiado do pai do pupilo), utilizando como texto-base a obra de Homero: um manual ético, um tratado do ideal, a partir do exemplo dos heróis homéricos, como o cultivo da honra, da aspiração pela superioridade, expor-se ao ódio por um fim nobre - a alta idéia da glória.

Sobre a educação espartana, Marrou lembra que, como uma cidade de semi-iletrados onde a prática militar é sua principal característica, a educação heróica de Homero perpetua-se. Com a dificuldade da escassez de fontes especificamente sobre a educação em Esparta - as fontes sobre sua cultura são mais comuns - o autor diz que é essencialmente militar, voltada para a formação do soldado com um ideal coletivo: devoção aos interesses do “Estado”, morrer pelo coletivo, caracterizando, assim, uma outra concepção de honra: resistir numa batalha. A educação espartana não tem por fim selecionar heróis, mas formar uma cidade inteira de heróis. Para tanto, a educação é baseada na prática de esportes (conquistando, assim, grande sucesso nos Jogos Olímpicos), com bons treinadores e inovações técnicas. A música era o centro da cultura, com a dança (ginástica) e o canto (poesia) incluídas na pedagogia, sempre com o objetivo de formar heróis virtuosos.
Esparta foi a predecessora da cultura arcaica, atraía grandes artistas estrangeiros e a vida artística e esportiva era manifestada coletivamente nas grandes festas religiosas. Com a Grécia evoluindo para a época clássica, Esparta resistiu às inovações das outras cidades, estacionando sua evolução e, finalmente, estruturando a severa educação espartana clássica, a qual faz uma espécie de “adestramento” do hoplita, aceitando-se somente crianças fisicamente perfeitas que, a partir dos 7 anos de idade passam a pertencer ao “Estado”, onde ficam internadas até os 30 anos num regime de educação coletiva e vida em comunidade. Essa “criação” praticamente sacrifica o aspecto intelectual, quando mesmo as artes ainda cultivadas eram utilizadas para fins militares e morais. Marrou finaliza com uma crítica negativa à época clássica de Esparta.

A Apoteose de Homero - Jean Auguste Dominique Ingres, 1827Foi em Atenas que a educação perdeu seu caráter essencialmente militar, quando seus habitantes despiram-se de suas armaduras e armas, adotando um estilo de vida menos rude e mais civilizado, onde as técnicas guerreiras eram consideradas esporte ou arte. Inicialmente a educação continuava a ser privilégio de uma elite, mas o aumento da demanda de alunos gerou a democratização do ensino, surgindo, assim, a escola, onde ensinava-se educação física, música e poesia - sempre objetivando seu aspecto moral; com a difusão da escrita, tornou-se necessário também o ensino das letras nas escolas. O ideal dessa educação antiga continua sendo de ordem ética: moralidade e beleza física.

Partindo para a transição à educação intelectual, o autor fala das escolas de Medicina e do desenvolvimento da Filosofia - resultando na criação da escola filosófica. Após a crise da tirania, a vida política tornou-se o aspecto fundamental e, a partir de então, a educação visa a formação do político.
Os sofistas exerciam o papel de educadores nessa nova pedagogia. Tem-se no livro a explicação de como realizavam seu ofício e também como faziam para conseguir alunos - originando, assim, a prática das Conferências. Ensinavam a dialética (a arte de persuadir) e a retórica (a arte de falar), bem como a cultura em geral, realizando uma inovação na educação grega. Sócrates (também um educador), fazia oposição à pedagogia dos sofistas; entretanto, entre os próprios sofistas havia divergências: uma contribuição para a evolução da educação.

Dessa forma, entende-se como a educação grega deixou para trás seu caráter essencialmente militar, voltando-se à formação do intelecto e à capacitação para a arte da política. Interessante notar como nossos antepassados clássicos preocupavam-se em preparar seus alunos para a vida, enquanto, passados tantos séculos, nossa cultura contemporânea preocupa-se em formar o “consumidor”, marginalizando a formação do “cidadão”.
Charge de Santiago para A Charge Online

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Blogagem coletiva - "Professores do Brasil"

O Ponderantes está promovendo a blogagem coletiva “Professores do Brasil”. O evento ocorrerá na mesma data em que se comemora o dia desses profissionais que, embora sejam imprescindíveis à sociedade, estão cada vez menos valorizados.
Se você quiser participar, deverá publicar em seu blog um post relacionado ao tema proposto – “Professores do Brasil” – no próximo dia 15 de outubro. Seu post pode conter, por exemplo, um texto crítico, um protesto, uma homenagem através de poesia, um relato sobre um professor que marcou sua vida, uma imagem, um vídeo ou o que sua criatividade desejar.