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terça-feira, 12 de abril de 2011

Da Terra aos Sonhos


Com certeza, antes de você acessar esse blog no dia de hoje, abriu a página inicial do Google e viu o banner de comemoração dos 50 anos da viagem de Yuri (ou Iuri) Gagarin. Neste caso, não estou a postar nenhuma novidade, mas minha paixão por tudo o que envolve astronomia não me permite deixar de escrever algo neste dia.
Yuri Alekseyevitch Gagarin (aqui é possível substituir algumas das letras "y" por "i", devido a problemas na conversão da grafia russa para a ocidental) nasceu em 1934, ainda na antiga União Soviética. Tornou-se tenente da Força Aérea Soviética em 1957 e, em 12 de abril de 1961, o primeiro ser humano a viajar para o espaço com a nave Vostok 1, completando uma volta em órbita de nosso planeta por 108 minutos, entre os quais proferiu famosa exclamação "A Terra é azul!". Até hoje considerado herói nacional na Rússia, Gagarin morreu em 1968 num acidente de avião, um ano antes de poder ver o foguete norte-americano Apollo 11 numa missão rumo à Lua.

Gagarin foi o primeiro a realizar um antigo sonho da humanidade. Após conquistar os ares com a invenção do avião, a constante insatisfação de nossa natureza humana quis ir mais longe. A lembrança desse episódio fez-me lembrar de um antigo e célebre filme de 1902, de apenas 14 minutos de duração: Viagem à Lua, do francês Georges Méliès. O diretor, que por muito tempo trabalhou como ator de teatro e também como mágico, presenteou a história do Cinema com o primeiro filme considerado como ficção científica. A imagem da Lua com um rosto antropomórfico, atingido bem no olho pelo míssil que serviu de transporte aos cientistas da missão, ficou como uma das cenas mais conhecidas do século XX, ainda em seu início. O filme - com atuações gestuais de proporções exageradas para os dias atuais, combinando truques de teatro com os recursos cinematográficos ainda sendo descobertos por talentosos diretores - conta com um congresso científico, um míssil lançado à Lua por um canhão, cenas de um subsolo lunar habitado pelos estranhos selenitas, atos de coragem de cientistas engravatados e um resgate marítimo ao final (este mostrando outro ambiente ainda pouco conhecido pela humanidade: as profundezas dos oceanos).
Gravura ilustrando a capa da edição
de 1872 de Da Terra à Lua.
Tudo isso sem se preocurar com questões relativas à órbita, gravidade, distância, velocidade, falta de oxigênio, vestimentas adequadas, entre outras. Preocupações estas que, anos antes, o autor também francês Júlio Verne demonstrou, ao lançar seus livros Da Terra à Lua em 1865 e À Roda da Lua em 1869 (esse último, 100 anos antes da Apollo 11). Temos nitidamente a ideia de que essas obras influenciaram o filme aqui citado, arriscando-me até em dizer que o ambiente em que os cientistas encontraram os selenitas remetem ao descrito por Verne em Viagem ao Centro da Terra, de 1864.


É possível conferir esses comentários através dos links para o Youtube:
http://youtu.be/lZpXc2plLGo - Pouco mais de 11 minutos deste filme, com o adicional de uma estranha narração dos episódios em inglês.
http://youtu.be/7JDaOOw0MEE - Esse com pouco mais de 10 minutos, sem narração.

Dessa forma, concluímos que a imaginação do ser humano é sempre anterior e mais rápida que a concretização de seus sonhos. O filme citado é apenas um exemplo desse anseio que já existia antes de Gagarin, e os livros de Verne mostram o que há de genuíno no que diz respeito à distância existente nos caminhos entre a mente, o papel e as ferramentas. Por tudo isso, é ótimo saber que os sonhos obrigam o ser humano a pensar, como já citou Milton Santos.


Fontes:
SCHNEIDER, Steven Jay (org.) 1001 filmes para ver antes de morrer. tradução de Carlos I. Costas, Fabiano Morais e Lívia Almeida. RJ: Sextante, 2008.
http://pt.wikipedia.org/ acessado em 12/04/2011.
http://br.youtube.com/ acessado em 12/04/2011.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Navegar é preciso...

Ok... acho que não poderia haver "bordão" mais óbvio do que este para servir de título para essa postagem. Por outro lado, é impossível deixar de lembrar, numa ocasião como essa, Fernando Pessoa e uma das suas mais conhecidas frases, formada por uma bela ambiguidade que gera confusões, dúvidas e discussões.
A ocasião citada refere-se ao dia 22 de abril que, além de ser a data de aniversário de Itanhaém - coincidentemente ou não - marca o encontro de duas culturas que iriam colaborar na ainda não formada identidade brasileira.
Se para Pessoa "viver não é necessário; o que é necessário é criar", foi justamente a capacidade de criação humana que permitiu navegar ser um ato preciso. No período conhecido como o das "Grandes Navegações" os cientistas desenvolveram formas de se localizar em meio a "mares nunca dantes navegados" (e então cito outro inevitável autor nesse tema, Camões), através da leitura das estrelas, orientada por instrumentos de localização.
Hoje em dia, com o GPS e a absurda funcionalidade do Google Maps, fica a cargo da imaginação e dos registros históricos pensar como os navegadores se localizavam a mais de seis séculos atrás:

Carta náutica: mapa, desenhado artisticamente com indicações detalhadas para a navegação. Esta carta foi produzida no século XIV.




Bússola: instrumento composto por uma agulha magnetizada que sempre aponta para o Norte, servindo para indicar direções.


Astrolábio: instrumento utilizado para calcular a posição e a altura dos astros, como este datado de 1608.











Continuando no raciocínio de Fernando Pessoa, o encontro de 22 de abril de 1500 não teria acontecido sem uma criação portuguesa, a Caravela. Inspirada na embarcação árabe carib, sua versão européia tinha dois ou três mastros, com velas triangulares. Era rápida e de fácil manobra. Em fins do século XV, surge um outro tipo de embarcação, a Nau. É maior e mais resistente que as embarcações precedentes, tendo sido utilizada por Vasco da Gama, na sua primeira viagem ao Oriente em 1498.


Este tema torna-se interessante ao educando quando se explora esse viés aventureiro e científico das navegações do século XV. O sentimento de descoberta fica mais latente ao perceberem que o mundo conhecido até então restringia-se à Europa, parte da Ásia e norte da África. Em experiências profissionais, pude perceber o fascínio dos alunos ao serem apresentados às embarcações, instrumentos e histórias de intempéries e lendas de monstros marinhos. Talvez a sede por descobrir o que há além dos limites de sua cidade - e muitas vezes até de seu bairro - cause uma identificação com as histórias dos navegadores.













Além disso, não se pode esquecer que os habitantes de Pindorama também não conheciam o que havia além-mar, e o inicial estranhamento recíporoco entre os povos pode gerar reflexões acerca de quem seria eu e quem é o outro.



quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sugestão de livro: "A incrível viagem do imperador"

A incrível viagem do imperador, de Patrícia Engel Secco (ilustrações de Fábio Sgroi) utiliza-se do recurso da metalinguagem, ao contar a história de um imperador romano que viaja no tempo e, concomitantemente, mostra as observações de suas leitoras, irmãs gêmeas. Este recurso permite que o real leitor observe o estranhamento do imperador diante das mudanças e permanências do futuro e, ao mesmo tempo, mostra a posição ativa das leitoras diante das reações do protagonista.
Fazendo referências a nomes conhecidos de imperadores romanos, Caio Júlio é um imperador fictício que, em 200 a.C., ao fugir de uma rebelião, entra acidentalmente numa máquina do tempo e vai parar no Rio de Janeiro de 1820 – como diria Manuel Antônio de Almeida: “Era no tempo do rei...”. E o imperador, também pertencente ao passado, estranha o que para ele seria o futuro; porém, para as leitoras, os dois contextos pertencem ao passado.
A partir daí, desenrola-se uma discussão sobre a comunicação. O imperador está aflito para enviar uma mensagem às suas tropas, mas percebe que está distante deles no tempo e no espaço. Buscando fugir disso, realiza várias viagens no tempo (Londres, 1870; Nova York, 1901...) As pessoas que ele encontra, mesmo sem nada entenderem, procuram ajudá-lo com os meios de comunicação existentes em cada época. E neste contexto, sempre estão presentes as observações das leitoras, que frequentemente param a leitura para discutir a situação do imperador.
A viagem continua até que o protagonista consegue voltar para Roma, mas na nossa época contemporânea. Assim, o personagem entra em contato com o que há de mais moderno em comunicação (internet, televisão, celular etc.) e percebe que a cada viagem as formas de comunicação parecem ser mais rápidas, o que causa a percepção de que o espaço também ficou menor. A história ainda abre espaço para orientações acerca do uso consciente da eletricidade, num recurso educacional do livro.

Portanto, este livro permite diversos tipos de trabalhos e discussões com os alunos sobre as mudanças e permanências no decorrer da História, passando visões não só de personagens contemporâneos a nós – as irmãs – como também a percepção disso tudo para alguém que não conhece a História posterior à sua época – o que seria o caso do imperador. Além disso, considerando que vivemos num tempo em que as comunicações são praticamente instantâneas e que as distâncias quase se anulam, os alunos tem uma oportunidade para refletir sobre o fato de que toda essa velocidade e facilidade é algo recente, e que o ser humano sempre enfrentou dificuldades com as comunicações, mas sempre buscou soluções para torná-las mais velozes, eficientes e de uso cada vez mais simples e acessível.
Por Eduardo Carvalho de Almeida

Sugestões para "A incrível viagem do imperador"

A seguir, algumas sugestões de atividades que podem ser desenvolvidas utilizando-se o livro A incrível viagem do Imperador, de Patrícia Engel Secco (já citado em outro post) como referência:
  • O texto do livro faz referências diretas a locais e épocas específicas: Roma, 200 a.C.; Rio de Janeiro, 1820; Londres, 1870; Nova York, 1901; e novamente Roma no início do século XXI – contextualizando o Império Romano, a família real portuguesa no Brasil, a 2ª Revolução Industrial, a Belle Époque e a contemporaneidade. Assim, podem-se solicitar aos alunos pesquisas acerca desses contextos, para descobrirem os motivos que levaram a autora a escolher essas épocas para falar sobre a comunicação e a eletricidade. A atividade pode ser feita como uma pesquisa individual, ou separando-se em grupos para que cada um selecione na história um contexto e faça uma pesquisa que leve a conclusões sobre as relações deste contexto com a proposta do livro. Cartazes com os resultados podem ser confeccionados, e expostos em ordem cronológica formando uma linha do tempo com as aventuras do imperador fictício;
  • Uma das reflexões principais do texto diz respeito ao avanço das telecomunicações, mais rápidas e eficientes com o passar do tempo. A história cita algumas invenções e descobertas, bem como seus contextos, e isso pode servir como base para os alunos pesquisarem sobre este tema, tanto os citados no livro quanto outros que poderão vir a ser acrescentados a esse conhecimento. Mais uma vez, o resultado pode ser organizado numa linha do tempo, sendo que esta pode ser construída das mais diversas formas (cartazes, apresentação em computador, maquetes etc.);
  • O texto é rico em descrições, instrumento que o autor utilizou para caracterizar as épocas e os lugares em que o personagem passou, devido a isso existe um uso frequente de adjetivos e locuções adjetivas. Sendo assim, pode-se fazer um trabalho em grupo, dividindo-os de acordo com as cidades em que Caio Julio esteve. Os grupos devem reler o livro e analisar o uso dos recursos já citados na construção dos ambientes e das pessoas que viviam naquelas épocas. Após a finalização desta etapa, o professor pode escolher várias formas de dar continuidade a atividade, uma delas é fazer com que os grupos socializem a análise e discutam: qual o contexto que é mais bem descrito? Qual é mais fácil de imaginar? De acordo com as discussões, o professor deve intervir de maneira que os educandos notem a importância do uso dos adjetivos e locuções adjetivas para enriquecer e compreender um texto. Para o término da atividade, uma das opções é solicitar que os alunos façam um texto coletivo acrescentando recursos descritivos na parte do livro que eles julgarem ser necessário. Pode-se também utilizar um outro ambiente escolhido por eles para fazer a descrição, ou ainda desenhar os lugares e pessoas descritas no livro e depois compararem com os do colega, neste caso analisar-se-á também o ponto de vista e a leitura individual de cada um.

Por Eduardo Carvalho de Almeida (História) e Thais Alencar B. Nunziata (Língua Portuguesa)

Coordenação Ciclos III e IV