segunda-feira, 18 de julho de 2011

Artistas viajantes

Na postagem interior, foi comentada a incrível semelhança entre as paisagens do Rio de Janeiro e as reproduções digitais destes cenários para a animação Rio, de Carlos Saldanha. Dessa forma, dá-se prosseguimento ao tema através de alguns dos chamados "artistas viajantes", que produziram pelas regiões do Brasil principalmente entre os séculos XVII e XIX.
Dentre estes artistas, destacam-se aqui as produções da
Missão Artística Francesa:
A invasão da península ibérica por Napoleão fez com que a Coroa portuguesa partisse para o Brasil em 1808. Ao chegar, D. João VI decretou uma série de medidas econômicas e políticas que mudaram a organização social do Brasil. A família real preocupava-se, ainda, em europeizar o Rio de Janeiro. Posteriormente, a queda de Napoleão propiciou a retomada dos laços culturais entre a França e Portugal. À convite da Corte portuguesa, veio ao Rio de Janeiro a Missão Artística Francesa, chefiada por Joaquim Lebreton, e composta por um grupo de artistas plásticos. Dela faziam parte os pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, os escultores Auguste Marie Taunay, Marc e Zéphirin Ferrez e o arquiteto Grandjean de Montigny. Esse grupo organizou, em agosto de 1816, a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, transformada, em 1826, na Imperial Academia e Escola de Belas-Artes.
Durante os cinco anos em que aqui permaneceu Taunay, o pintor produziu cerca de trinta paisagens do Rio de Janeiro e regiões próximas:
  


Nicolas-Antoine Taunay. Vista do Morro de Santo Antônio, 1816
Debret. O entrudo no Rio de Janeiro, 1823.
Debret, por sua vez, realizou no Brasil uma imensa obra . Fez vários retratos da família real, aquarelas e desenhos sobre o cotidiano da cidade, retratando as atividades dos escravos, dos grupos indígenas e, também, sobre os fatos da vida da Corte. Pintou cenários para o Teatro São João (atual João Caetano) e realizou trabalhos de ornamentação da cidade do Rio de Janeiro, para festas públicas e oficiais, como a aclamação do rei D. João VI. Além disso, foi professor de pintura histórica na Academia de Belas-Artes, tendo permanecido no Brasil durante quinze anos. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o livro "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", publicado em três volumes.

Desembarque da Princesa Real Leopoldina, de Jean-Baptiste Debret.

As viagens de cientistas, artistas e estudiosos tiveram um grande estímulo a partir de 1817, com o casamento da princesa Leopoldina, filha do imperador da Áustria, com D. Pedro. O grande interesse de D. Leopoldina pelas ciências naturais e pelas artes fez com que, em seu séquito, viesse uma enorme missão de cientistas e artistas europeus para explorar esse “país desconhecido”.
Integrando a comitiva da princesa também encontra-se o pintor austríaco Thomas Ender, que viajou pelo interior do Brasil, retratando paisagens e cenas da vida do povo, em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Ender permaneceu no Brasil por 18 anos, período em que produziu mais de 800 desenhos e aquarelas.
Finalizando, fica aqui mais uma sugestão de análise de imagens, priorizando a comparação das paisagens retratadas pelos artistas viajantes no passado e os atuais cenários do Rio de Janeiro. Esta cidade foi escolhida pelo vasto material produzido desde que foi estabelecida como centro político-administrativo do império português - e posteriormente brasileiro -, mas outras regiões também foram retratadas e estudadas da mesma forma. Ademais, a atividade torna-se mais interessante se, além de fotografias e videos, utilizarem-se as imagens geradas para a animação já citada, com a exibição do filme antes de iniciarem-se os trabalhos, ou durante as produções do alunos. A seguir, mais algumas obras de outros artistas estrangeiros:








Clik nas imagens deste post para obtê-las numa resolução maior.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Let me take you to Rio

Frequentemente, presencio pessoas que torcem o nariz quando se fala algo sobre um filme nacional. Talvez isso aconteça porque os potenciais espectadores geralmente dependem das produções divulgadas durante a programação da Rede Globo, com matérias em telejornais ou mesmo incluídas em cenas de telenovelas. Como na maioria das vezes quem vai ao cinema prestigiar um desses filmes se sente no confortável sofá de sua sala, por não conseguir discernir se está assistindo a uma produção cinematográfica ou a uma novela (com os mesmos atores, cenários, qualidade e linguagens), os que se acham críticos chegam à conclusão genérica de que todos os filmes nacionais são de média qualidade.
Sabemos que isso não é verdade e, ao mesmo tempo, também é. Entretanto, péssimas produções existem em todos os lugares (o que dizer de certas comédias “colegiais” americanas?), a diferença talvez esteja nos recursos disponíveis para produção e na capacidade de expandir a divulgação.
Cena do voo de asa-delta ao redor do
Cristo Redentor.
Escrevo tudo isso como prólogo para meus comentários sobre a animação Rio. A necessidade dessa postagem surgiu após ter assistido o filme mais de três vezes (como professor, os meus colegas sabem o porquê) e não parar de pensar sobre esta produção.
Antes de tudo, surgem os comentários negativos: um desenho animado, ambientado no Rio de Janeiro, na época em que a cidade sediará alguns jogos da Copa do Mundo e as Olimpíadas? Será que estão querendo divulgar a cidade para não deixar os estrangeiros se preocuparem tanto com os problemas estruturais destes eventos? Deixo esses comentários para os teóricos da conspiração e já começo comemorando por este ser um filme visto por várias partes do mundo. E qualquer desconfiança se esvai quando se assiste junto a uma criança com seus olhinhos brilhando em ver tantos belos pássaros voando por diferentes cenários do Rio de Janeiro, tão perfeitos em seus detalhes, proporções e cores que nos deixam em dúvida se essas imagens foram produzidas por bytes ou por películas. Talvez por isso o filme também fez os olhos de muitos adultos brilharem.
 Acredito que tudo se deve ao fato de boa parte da equipe de produção ser de origem tupiniquim: o diretor, produção musical, compositores, músicos, todos esses créditos têm nomes brasileiros em sua essência, e nada me tira da mente que este é o motivo por finalmente ver um filme de origem americana ser tão fiel à nossa realidade...

O tucano Rafael tentou ensinar Blu a voar da Pedra da Gávea.

... Não sei se já existe um nome para uma fobia de filmes dublados, mas me incluo nesse grupo, independente da nacionalidade da produção. Mas, geralmente, abro exceções quando se tratam de desenhos animados, pois é reconhecida a qualidade do trabalho de dublagem para animações no Brasil e eu precisava ver este filme em português para melhor aproveitar seu clima. Após matar essa vontade, surgiu outra. Sabe-se que, no trabalho de dublagem, a trilha de sons, ruídos, algumas músicas e vozes de fundo – mantidas no original – acabam por ficar num volume ligeiramente mais baixo e numa frequência diferente para dar vez às vozes dubladas. Assim, ouvi algumas vozes em português com essas características e ficou a curiosidade sobre as vozes no áudio original. Assistindo ao filme – mais uma vez – em inglês, percebi que não só muitos brasileiros “figurantes” realmente falam em português (o que me surpreendeu nesta produção norte-americana), mas também os próprios personagens dizem algumas frases no nosso idioma, como o canarinho dublado (no original) por Jammie Foxx cumprimentar o protagonista Blu com um “Tudo bom?” e soltar “Aí, galera!” antes de sua frase falada em inglês, no meio de uma festa; além disso, muitas das músicas são um misto de cantores interpretando nos dois idiomas.

Enseada de Botafogo, Baía de Guanabara e Pão de Açúcar.
Outra característica que chama atenção é a fidelidade às diferentes ambientações do Rio de Janeiro. Sem exageros, animais e humanos convivem de acordo com a realidade, cenas urbanas contrastam com florestas, o luxo com a pobreza: temos belas praias povoadas por centenas de guarda-sóis e mesinhas da cor vermelha desgastada nos quiosques, Pão de Açúcar, Pedra da Gávea, floresta da Tijuca, bondinho, Santa Teresa, o Cristo Redentor e também feiras com sua beleza caótica, ruas congestionadas e as favelas. Tudo isso devemos ao diretor brasileiro, Carlos Saldanha (já consagrado pela animação Era do Gelo): qual americano colocaria um jogo justamente de Brasil contra Argentina na história? Lembrando que, concomitante à partida, os vilões percorrem as confusas ruas de uma favela atrás das araras (com nosso diretor indiretamente orientando pelo guru da estética da pobreza, Fernando Meirelles), mantendo a tradição de perseguir aves pela favela na tela do cinema, desde 2002. É admirável como Saldanha conseguiu incluir esses cenários do Rio de Janeiro no enredo, de modo que, em alguns casos, as características do local definem a direção que a trama vai tomar.
O menino Fernando introduz o espectador à
realidades das favelas, que não deixam de
fazer parte dos cenários.
A música também é um fator muito explorado. Talvez não existisse produtor musical executivo mais apto para essa tarefa do que Sérgio Mendes. Há tempos divulgando nossos ritmos de forma moderna pelo mundo, Mendes, juntamente com o experiente inglês John Powell e o percussionista-compositor Carlinhos Brown, fizeram uma trilha sonora (infantil) típica do Rio (atual). Samba, bossa e chorinho extrapolam seus limites aliando-se a raves e até mesmo ao funk para resultar em misturas modernas e com letras (traduzidas ou originais) numa linguagem própria para crianças. O ritmo musical, inclusive, define alguns personagens, como o tucano sambista (aposentado) Rafael, o canário malandro Nico e o cardeal funkeiro Pedro, entre outros.
Dessa forma, belos cenários e modernas músicas tradicionais culminam na emocionante cena panorâmica do Sambódromo Marquês de Sapucaí, lembrando perfeitamente o que se vê na transmissão de TV no mês de fevereiro. No áudio original, os personagens principais, coadjuvantes e figurantes interagem em inglês e português, enquanto no fundo os sambas-enredos tocam em sua língua nativa.
Com tudo isso, pôde-se observar do que um diretor e (parte de uma) produção brasileiros são capazes de fazer, tendo em mãos os recursos de uma gigante como a Fox, em estúdios da Blue Sky e da Skywalker Sounds. Outros filmes e animações foram feitos com estrutura equivalente e não conseguiram a chegar a um resultado como o conquistado em Rio. Se os gringos não se importarem com os aeroportos e quiserem aproveitar a Copa ou as Olimpíadas para conferir o que o desenho mostra, todos sairão ganhando, principalmente o talento de nossos mais diversos artistas.


Créditos das foto-montagens: RioTur / ViajeAqui
http://viajeaqui.abril.com.br/fotos/brasil/rio-filme-pontos-turisticos-624656.shtml

sábado, 2 de julho de 2011

Esporte bretão?

É lugar-comum dizer que a popularidade do Futebol se deve à sua incrível capacidade de se adaptar a qualquer realidade - estrutural, econômica, etária etc. -, bastando algo que role de alguma forma (bolas de diversos materiais e tamanhos, tampinhas, material escolar...) e um local para se direcionar o referido objeto (o que nem sempre é necessário, quando se quer apenas driblar)... Também costuma-se chamá-lo de "esporte bretão", "inventado na Inglaterra", o que também é discutível, pois já existem relatos de práticas esportivas com características similares ao atual futebol na China e Japão antigos, Grécia e Roma, além de jogos da cultura maia e outros antigos povos norte-americanos (citando poucas referências).
A paternidade do futebol atribuída aos britânicos se deve ao fato de que nesta terra surgiu a preocupação em se normatizar essa prática esportiva, apenas no século XIX, servindo de referência para as atuais regras do desporto. A Football Association, formada por 11 clubes londrinos (inicialmente, eram 12 clubes), estabeleceu regras para este esporte em 1863, considerado o ano de nascimento do futebol moderno.
  “Futebol”, gravura de R. Cruickshank, publicada em 1827.
Mesmo sabendo que este tipo de informação pode ser conseguida em qualquer enciclopédia, impressa ou digital, chama a atenção a data dos primeiros relatos na China dos séculos III e II antes da era corrente, até a normatização britânica, cerca de vinte e dois séculos depois. Se os referidos clubes preocuparam-se em criar regras para os esporte, posso citar dois dos motivos para isso.
O principal seria diferenciá-lo de outros esportes similares na época, como o Rugby (este era o preferido do clube que ficou de fora da "association"), mas também chama a atenção a necessidade de se organizar um esporte praticado de forma caótica, quase sempre atribuído a situações confusas e à desordem.
“Futebol”, gravura de H. Heath (1830).
Isaac Robert Cruikshank, um caricaturista do século XIX que ilustrou obras como uma edição de "Dom Quixote" e um livro nomeado "Points of Misery". Suas produções mostram situações cotidianas de forma bem-humorada, e basta observar sua visão do futebol (ou "foot ball", o autor grafou os termos de forma separada) publicada em 1827 para se inferir sobre a prática deste jogo, anos antes da regulamentação.
Cruikshank não é o único exemplo. Outra gravura conhecida sobre o futebol é de 1830, produzida por H. Heath mostra uma situação análoga.

Goleiro francês Abbés e Pelé (1958).

Nilton Santos no jogo entre Brasil e União Soviética,
na Copa do Mundo de 1958.
  O francês Fontaine iguala o jogo Brasil 1 x 1 França
 na Copa do Mundo de 1958.
Chegando ao Brasil em 1894, trazido pelo paulista Charles Miller após uma viagem à Inglaterra, o futebol começou como um esporte de elite, mas a sua já citada adaptabilidade popularizou-o em nosso país de forma extraordinária. Participando desde a primeira Copa do Mundo organizada pela FIFA (Uruguai, 1930), o Brasil já sediou uma edição do campeonato em 1950, mas conquistando seu primeiro título apenas em 1958, na Suécia e, posteriormente, mais um título sequencial (Chile, 1962). Deixemos as obviedades de lado e vamos partir para a observação das cenas da época.
Brasil e Tchecoslováquia (1962).

Garrincha marca gol no jogo contra o Chile (1962).

Zito e Amarildo na Copa do Mundo de 1962.
Após a vitória da Inglaterra em 1966, o Brasil voltar a vencer no famoso "México 70", em pleno regime de Ditadura Militar, unindo esquerdas e direitas, ricos e pobres, guerrilheiros e militares, Arena's e MDB's num só grito quando o capitão (da seleção) Carlos Alberto levantou a taça. Aproveitando a deixa, façamos um salto para os anos finais do regime, quando a seleção de 1982 encantou a todos (apesar de não levantar a taça), para disponibilizar fotografias coloridas do evento.
Posteriormente, ainda matendo a tradição de Copa do Mundo e eleições no mesmo ano, comemorou-se 1994 e 2002, bastando observar as fotos e relembrar os momentos de ansiedade e alegria.


  Batalha aérea entre Everaldo e Luigi Riva, na final da
Copa do Mundo de 1970, entre Brasil e Itália.
Pelé na final Brasil x Itália (1970).

Clodoaldo marca na semifinal contra o Uruguai (1970).

Capitão Sócrates em jogo contra a Itália na Copa do Mundo em 1982.

  No memorável jogo entre Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982,
Serginho disputa a bola com dois italianos, Cabrini e Oriali.

Assim, aproveitando a Copa América (e fingindo que não estamos em período de férias escolares) deixo aqui uma sugestão de atividade, consistindo em  mostrar essas imagens aos alunos e solicitar que produzam sobre as mudanças que o futebol sofreu com o passar do tempo (organização, táticas, uniformes, estrutura, desempenho dos jogadores etc.) e também discutir as características da imagens (gravura, fotografia em branco e preto, fotografia colorida em película, fotografia digital...) que registraram essas mudanças (e permanências).

Bebeto marca no Brasil x Holanda da Copa do Mundo de 1994.

Branco cobra falta no jogo Brasil 3x2 Holanda (1994).

Raí no jogo Brasil x Camarões (1994).

Paolo Maldini e Romário lutam pela posse da bola no jogo Brasil x Itália (1994).

Roberto Baggio é marcado por Cafú (Brasil x Itália, 1994).

Taffarel defende o chute de Massaro (Brasil x Itália, 1994).

Romário e o sueco Håkan Mil (1994).

Conquista do pentacampeonato (2002).

Fontes:
The Global Game

L'aimable Faubourien

All Posters

quarta-feira, 25 de maio de 2011

José Leonilson: o coração como matéria-prima

"Léo não conseguiu salvar o mundo."...
O Léo em questão é o artista brasiliero José Leonilson e o mundo que, aparentemente, não conseguiu salvar se apresentou a ele primeiramente em Fortaleza, no dia 1º de março de 1957 e, posteriormente, em São Paulo (1961), onde ingressou na FAAP em 1977 e depois partiu em sua primeira viagem ao exterior em 1981. O mundo, enfim, estava para ser salvo. Entretanto, como já disse André Abujamra, "o mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente" e, no caso de Léo, fica a dúvida sobre qual mundo tentou salvar.
Uma pessoa especial uma vez disse que Leonilson foi "o ser humano mais lindo que já existiu". Ao ouvir essa frase e presenciar a exposição sobre o artista no Itaú Cultural, cheguei à conclusão que também é preciso ser um humano lindo para compreender toda a complexidade do mundo de dentro de Léo.
A referida exposição chama-se "Sob o peso dos meus amores" e está em cartaz até o dia 29 de maio. O destino, sob meu controle ou não, levou-me até lá e descobri uma nova forma de se fazer Arte. Apesar de ser considerado pintor, gravador e desenhista, Léo não só utiliza-se dos objetos mais diversficados (tecidos, sucata, sobras de bijouterias, tinta, linha de bordado etc. etc. etc.), como também nenhuma de suas obras se concretizaria sem a principal matéria-prima, o coração. E este também servirá para que se possa apreciar as obras do artista: não basta olhar, tocar, cheirar... é preciso sentir. Sentir o coração de um talentoso tímido que, além de sofrer todo o preconceito por sua homossexualidade, ainda teve que conviver por dois anos com o conhecimento de ser portador do vírus da Aids.
Está tudo lá: seus sonhos, anseios, desejos, amores frustados e distantes, a família, a doença, o preconceito, os amigos... É interessante perceber que, ao ir a uma exposição para se ver obras, na verdade se viu uma biografia, escancarada, confeccionada pelo próprio protagonista. É latente a presença de pontes sobre rios distanciando cidades, opostos, pessoas, corações. Ainda utilizando mais a sensibilidade e menos o senso crítico, é muito bom (é esse o termo) observar a variação do tamanho das obras, que podem ocupar toda a altura da parede para ficarmos um bom tempo contemplando, ou exigir que apertemos os olhos para enxergar melhor minúsculas montagens e desenhos do tamanho do coração do artista no momento de sua concepção. Pela primeira vez, senti-me à vontade para definir o que um artista estava pensando (sentindo) ao produzir suas obras, pois fica claro que Leonilson quer que façamos isso... E dessa forma, Leonilson nos deixa - e ao mundo - no dia 28 de maio, em São Paulo. Apenas uma data convencionada pelos homens, pois o ser humano continua vivo. Se Léo achou que não conseguiu salvar o mundo - o de fora - com certeza está ajudando a salvar o mundo de dentro de muita gente.



(Com excessão da foto de Leonilson, as obras apresentadas neste post foram fotografadas na própria exposição - era permitido.)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Da Terra aos Sonhos


Com certeza, antes de você acessar esse blog no dia de hoje, abriu a página inicial do Google e viu o banner de comemoração dos 50 anos da viagem de Yuri (ou Iuri) Gagarin. Neste caso, não estou a postar nenhuma novidade, mas minha paixão por tudo o que envolve astronomia não me permite deixar de escrever algo neste dia.
Yuri Alekseyevitch Gagarin (aqui é possível substituir algumas das letras "y" por "i", devido a problemas na conversão da grafia russa para a ocidental) nasceu em 1934, ainda na antiga União Soviética. Tornou-se tenente da Força Aérea Soviética em 1957 e, em 12 de abril de 1961, o primeiro ser humano a viajar para o espaço com a nave Vostok 1, completando uma volta em órbita de nosso planeta por 108 minutos, entre os quais proferiu famosa exclamação "A Terra é azul!". Até hoje considerado herói nacional na Rússia, Gagarin morreu em 1968 num acidente de avião, um ano antes de poder ver o foguete norte-americano Apollo 11 numa missão rumo à Lua.

Gagarin foi o primeiro a realizar um antigo sonho da humanidade. Após conquistar os ares com a invenção do avião, a constante insatisfação de nossa natureza humana quis ir mais longe. A lembrança desse episódio fez-me lembrar de um antigo e célebre filme de 1902, de apenas 14 minutos de duração: Viagem à Lua, do francês Georges Méliès. O diretor, que por muito tempo trabalhou como ator de teatro e também como mágico, presenteou a história do Cinema com o primeiro filme considerado como ficção científica. A imagem da Lua com um rosto antropomórfico, atingido bem no olho pelo míssil que serviu de transporte aos cientistas da missão, ficou como uma das cenas mais conhecidas do século XX, ainda em seu início. O filme - com atuações gestuais de proporções exageradas para os dias atuais, combinando truques de teatro com os recursos cinematográficos ainda sendo descobertos por talentosos diretores - conta com um congresso científico, um míssil lançado à Lua por um canhão, cenas de um subsolo lunar habitado pelos estranhos selenitas, atos de coragem de cientistas engravatados e um resgate marítimo ao final (este mostrando outro ambiente ainda pouco conhecido pela humanidade: as profundezas dos oceanos).
Gravura ilustrando a capa da edição
de 1872 de Da Terra à Lua.
Tudo isso sem se preocurar com questões relativas à órbita, gravidade, distância, velocidade, falta de oxigênio, vestimentas adequadas, entre outras. Preocupações estas que, anos antes, o autor também francês Júlio Verne demonstrou, ao lançar seus livros Da Terra à Lua em 1865 e À Roda da Lua em 1869 (esse último, 100 anos antes da Apollo 11). Temos nitidamente a ideia de que essas obras influenciaram o filme aqui citado, arriscando-me até em dizer que o ambiente em que os cientistas encontraram os selenitas remetem ao descrito por Verne em Viagem ao Centro da Terra, de 1864.


É possível conferir esses comentários através dos links para o Youtube:
http://youtu.be/lZpXc2plLGo - Pouco mais de 11 minutos deste filme, com o adicional de uma estranha narração dos episódios em inglês.
http://youtu.be/7JDaOOw0MEE - Esse com pouco mais de 10 minutos, sem narração.

Dessa forma, concluímos que a imaginação do ser humano é sempre anterior e mais rápida que a concretização de seus sonhos. O filme citado é apenas um exemplo desse anseio que já existia antes de Gagarin, e os livros de Verne mostram o que há de genuíno no que diz respeito à distância existente nos caminhos entre a mente, o papel e as ferramentas. Por tudo isso, é ótimo saber que os sonhos obrigam o ser humano a pensar, como já citou Milton Santos.


Fontes:
SCHNEIDER, Steven Jay (org.) 1001 filmes para ver antes de morrer. tradução de Carlos I. Costas, Fabiano Morais e Lívia Almeida. RJ: Sextante, 2008.
http://pt.wikipedia.org/ acessado em 12/04/2011.
http://br.youtube.com/ acessado em 12/04/2011.

sábado, 19 de março de 2011

Com os merecidos elogios e críticas: José de Anchieta

Na data de hoje, 19 de março (mas de 1534), nasceu o jesuíta José de Anchieta, cuja influência para a construção cultural e estrutural do Brasil e região da Baixada Santista é inquestionável. Críticas e elogios à parte, considero importante escrever sobre esta personalidade.

Chegada de Tomé
de Sousa à Bahia,
Biblioteca Municipal de SP.
No período do Brasil colônia, em março de 1549, chegou à antiga capitania da Baía de Todos os Santos o primeiro governador geral: Tomé de Sousa. Com ele, vieram também seis jesuítas, liderados pelo Padre Manoel da Nóbrega.
A Companhia de Jesus (ordem dos jesuítas) foi fundada pelo espanhol Inácio de Loyola, no século XVI. No Brasil, o principal objetivo era ensinar o catolicismo aos indígenas e divulgar a religião entre os colonos portugueses.


Companhia de Jesus (Roma) e Biblioteca Nacional
de Portugal (rosto do livro "Cartas Jesuíticas" de
autoria do padre José de Anchieta,
publicado em 1933 pela Editora Civilização Brasileira).

Além do já citado Manoel da Nóbrega, outro jesuíta de maior destaque foi Padre Anchieta, nascido no ano de 1534, em San Cristóbal de La Laguna (Tenerife, nas Ilhas Canárias). Ainda garoto, ingressou na Companhia de Jesus, onde desenvolveu uma profunda formação cultural e religiosa.
Desde cedo manifestou talentos literários, tendo sido poeta reconhecido em Coimbra. Escreveu contos, sermões e textos dramáticos. Expressava-se em latim, português, espanhol e tupi.
Chegou ao Brasil em 1553, na comitiva do segundo governador-geral, Duarte da Costa, e em 1554, ao lado do Padre Manoel da Nóbrega, fundou um colégio no planalto de Piratininga, que daria origem à vila de São Paulo, realizando a "primeira missa de São Paulo de Piratininga" em 25 de janeiro.

Fundação de São Paulo, de Antônio Parreiras (1913)
Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo
 Anchieta participou da "defesa" dessa vila na "invasão" dos índios tamoios, logo após a fundação (aqui podemos questionar quem foram os reais invasores). Participou, também, da expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, em 1567.
É da autoria de Anchieta a primeira gramática da língua tupi, publicada em Coimbra em 1595. José de Anchieta morreu em 9 de junho de 1597, em Reritiba (hoje Anchieta), no estado do Espírito Santo. Tinha 63 anos, 25 dos quais vividos no Brasil.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Logotipo do _edu_cação

Este post apresenta o logotipo do blog, algo que eu pretendia fazer há muito tempo, mas só agora reservei um tempo para trabalhar nisto. Espero que gostem:
Pois bem, o trocadilho foi inevitável...

terça-feira, 8 de março de 2011

Como ofender de forma despretensiosa e genial

Um incentivo para que eu volte a postar... Levantado a bandeira da liberdade permitida pelos blogs, publico desta vez uma resenha que fiz sobre um álbum, artista e banda que gosto muito. Entretanto, acho que o texto também revela que não consigo fugir das amarras de uma interpretação historiográfica de (quase) tudo.

The Raconteurs é um dos “projetos paralelos” do músico Jack White. Chamo White de músico – e não apenas guitarrista – porque ele é um dos poucos artistas do atual cenário pop que pode manter esse título. Afinal, sua inteligência e criatividade não permitem que ele permaneça apenas em sua banda “oficial”, The White Stripes (na qual faz parceria com a baterista Meg White), mas sim mantenha outras duas bandas e várias participações e featuring’s com artistas do naipe de Jimmy Page e da cantora Loretta Lynn, além de já antigos rumores de uma parceria com o Radiohead de Thom Yorke. Além disso, Jack White sabe como ninguém o momento e o ambiente certo para fazer determinado tipo de som e, o mais impressionante, sua capacidade para fazer hits em qualquer trabalho e estilo que produza. Ademais, sua performance no palco completa meus argumentos para chamá-lo de artista.

Voltando aos Raconteurs, escrevo especificamente sobre o álbum Consolers of the lonely, de 2008. Impressionante, absurdo e ótimo são adjetivos que eu poderia usar para descrevê-lo, mas prefiro dizer que o álbum é ofensivo. Este trabalho simplesmente ofende qualquer nova banda que ambiciona se apresentar como algo novo, a “salvação do rock”.
Nada disso, Consolers... não pretende salvar o rock, mas sim revigorá-lo. Revisitações a estilos antigos, dos ’50 aos ’80 não faltam. E tudo isso com muita técnica e lançando mão de vários recursos e instrumentos diferentes. Lógico, os Raconteurs não são apenas Jack White, pois conta com músicos de alta qualidade: Jack Lawrence (contrabaixo), Brendan Benson (guitarra, vocais e teclados) e Patrick Keeler (bateria).
Tudo isso junto forma algo que há muito não tinha ouvido. Acompanho muitas bandas novas, mas esse álbum conseguiu fazer estilos antigos soarem como novos.
O lado A é simplesmente um escândalo! Riffs, gritos e fortes baterias contrastando com sons cool conduzidos por um piano que parece ter uma conversa de antigos amigos com a guitarra, observados pelo atento contrabaixo e com uma bateria deixando seu recado em momentos pontuais. Numa das músicas, “The Switch And The Spur”, o grupo lança mão de praticamente tudo o que é permitido para se alcançar uma música que sintetize o que escrevi acima. Numa só canção, solos de guitarra e de metais, capela e coros, e até a uma linha de piano que procura acompanhar – e por que não? – imitar o que os metais estão dizendo.
Falei em lado A porque, apesar de ser lançado em CD, fica claro onde termina um lado e começa outro – mais uma vez recuperando uma antiga prática, a de determinar uma ordem das faixas e fazer com que elas permitam perceber um início, meio (clímax) e fim para o lado. A face B é recheada de hits em potencial, que revisitam desde os acordes do folk norte-americano até as guitarras ensurdecedoras do punk londrino, passando por boas lições do rock e das baladas. Destaque para “Top Yourself”, que já correu muito pelas rádios despertando aquele raro sentimento de “Que som é esse? Parece que eu já ouvi mas, ao mesmo tempo, soa tão novo...”, mais uma vez mostrando o talento de White e seus parceiros para fazer músicas boas, mas que podem perfeitamente tocar numa FM sem causar estranhamento para os acostumados com o easy listening e, ao mesmo tempo, conquistar a admiração dos mais exigentes.


The Racounters, em Consolers of the lonely, lançam mão do que há de melhor na música dos últimos 50 anos para criar seu próprio som. O cheiro de silício contrasta o tempo todo com o ar rústico da capa do álbum e das bases, enquanto os acordes com seus solos e riffs contagiantes fazem o papel de criar sua própria identidade para o grupo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Feedback post for a dying writer

Ok, já faz mais de um ano que não publico postagens. Será que ainda é possível manter esse blog? Espero que sim...
Quem conhece um pouco mais de Legião Urbana pôde compreender o título desta postagem. A resposta é para mim mesmo, assim como o referido escritor. Já passou da hora de tentar novamente.

Ilustrando, publico uma das tiras de Bill Waterson, Calvin & Hobbes, absolutamente minhas preferidas devido à extraordinária inconsequência de Calvin, muitas vezes questionada por seu amigo imaginário (ou voz da consciência) Haroldo. Ainda não sei com qual me identifico, talvez dependa do momento.

Mas a cena dos dois atravessando esse rio já diz tudo...

Abraços a todos!