sábado, 22 de outubro de 2011

O juízo moral da criança

Esta postagem é baseada na vídeo-aula ministrada pelo Prof. Ulisses Araújo (USP), para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC). As informações do vídeo utilizam como referência a obra de Jean Piaget. Assim como nos outros textos deste blog, acrescentei mais dados para complementar o debate.

Para a Filosofia, o senso moral refere-se a valores (justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade), sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e ações com consequências para si próprio e para os outros.
Em situações onde precisamos julgar e contrabalançar nossos valores (geralmente são situações dramáticas, de extrema aflição e angústia), dúvidas quanto à decisão a tomar são levantadas. Essas dúvidas põem à prova nossa consciência moral, pois exigem que decidamos o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e que assumamos todas as suas consequências, porque somos responsáveis por nossas escolhas.
O senso e a consciência moral referem-se a sentimentos, intenções, decisões e ações originados de opções entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, os quais, por sua vez, referem-se ao nosso desejo de afastar a dor e o sofrimento, alcançando a felicidade.
O senso e a consciência moral dizem respeito às relações que mantemos com os outros e, portanto, nascem e existem como parte de nossa vida social.

De acordo com Piaget, “toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras". Assim, a pessoa “moral” é aquela que cumpre as regras (formais ou não-formais) da sociedade. Para tanto, é necessário internalizar o respeito às normas da coletividade, num processo que se inicia na anomia, passando pela heteronomia, evoluindo para a autonomia.
A anomia é o estágio em que qualquer indivíduo inicia sua vida social. Desde o nascimento, somos egocêntricos e nossas vontades/necessidades devem ser saciadas de imediato. Com o tempo e o amadurecimento, caminhamos para a heteronomia, a qual se desenvolve a partir da coação e do respeito unilateral, quando cumprimos normas que foram impostas externamente.
Geralmente, não notamos a origem cultural dos valores éticos, do senso moral e da consciência moral (ou seja, a existência moral) porque somos educados em meio a eles, como se fossem eventos naturais, existentes independentemente da ação humana. A naturalização dos padrões morais de uma sociedade garante sua manutenção através do tempo. Dessa forma, oculta-se que a existência moral é uma criação histórico-cultural. A crianças que participam de sociedades que agem dessa forma estagnam-se no estágio da heteronomia, enquanto as que são estimuladas às práticas de cooperação e respeito mútuo têm muito mais chances de evoluírem sua autonomia, através da qual cumprem as normas porque as compreendem como importantes para a vida social, além de desenvolverem a capacidade de criar suas próprias regras de conduta visando (conscientemente ou não) a constante redução do egocentrismo.

Calvin & Hobbes - Bill Watterson

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

domingo, 18 de setembro de 2011

Os caminhos da interdisciplinaridade

Esta postagem é baseada na vídeo-aula ministrada pelo Prof. Ulisses Araújo (USP), para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC). As informações do vídeo utilizam como referência a obra do antropólogo e filósofo francês Edgar Morin.

Considerando que, apesar de estarmos em pleno século das novas tecnologias, diversidades e concepções da realidade (virtual ou natural), ainda existe a prática de buscar o conhecimento com o que Edgar Morin descreveu como o pensamento simplificador, baseado nos pensadores considerados modernos. Vale lembrar que o termo "moderno" refere-se ao recorte histórico do qual participa, por exemplo, o filósofo Descartes (século XVII). Apesar de geralmente o termo ser usado para o que é atual, para a História ainda se refere à posterioridade das viagens de Colombo ou da queda de Constantinopla.

É mais adequado utilizar-se o "contemporâneo" para definir os tempos atuais (apesar do recorte também referir-se à Revolução Francesa) mas, ainda nesses tempos considerados atuais continuamos modernos quando, por exemplo, buscamos conhecimento através da disjunção, separando-o em disciplinas ou áreas específicas, como se cada engrenagem do relógio ou cada músculo do nosso corpo funcionasse de maneira independente, sem considerar o todo. Da mesma forma, ainda segue-se o pensamento simplificador moderno quando se considera o funcionamento de uma dessas partes para explicar o todo, fazendo a redução do complexo ao simples; e dessa maneira cometem-se erros também no ambiente escolar, quando os conflitos do cotidiano levam a explicações simples para problemas complexos que, momentaneamente, geram uma solução efêmera, senão posteriormente agravante do problema. Finalmente, numa tentativa de corrigir o pensamento simples, a abstração pode formalizar o conhecimento, quando se juntam todas as engrenagens ou o corpo humano começa a correr de forma a movimentar boa parte da musculatura: as partes se agregam de forma compreensível para a geração do conhecimento.
Fonte: blog "Os muros da escola"

Entretanto, esta última não é o suficiente para superar-se o pensamento simplificador. Para deixarmos de ser modernos e aproximarmo-nos mais do contemporâneo, Morin pode nos ajudar quando se refere a outras formas de construir, aprimorar e chegar ao conhecimento. Uma delas seria a transdisciplinaridade, que pode ser perfeitamente explicada através do exemplo dos atuais Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's) do Ministério da Educação, quando sugerem os "Temas Transversais" que ultrapassam a própria articulação entre as disciplinas e, muitas vezes, considerados como fontes de novas disciplinas (apesar de não existir essa necessidade).
Ainda nos referencias pedagógicos, encontramos muitas sugestões de projetos que envolvam várias áreas do conhecimento. Porém, ao colocá-los em prática, deve-se tomar cuidado para não executar de forma equivocada a multidisciplinaridade, a qual busca conhecimentos diversos para analisar um fenômeno, mas muitas vezes é executada sem diálogo entre as disciplinas envolvidas, o que pode ser superado através da interdisciplinaridade e, dessa forma, utilizar conhecimentos já construídos para explicar os fenômenos e, com o diálogo entre as áreas, constituir novos e atualizados conhecimentos de forma crítica e esclarecedora.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

sábado, 10 de setembro de 2011

As revoluções educacionais

Esta postagem é baseada na vídeo-aula ministrada pelo Prof. Ulisses Araújo (USP), para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC). Utiliza como referência a obra de José M. Esteve, A terceira revolução educacional (editora Moderna, 2004).

Entende-se que até os dias atuais existiram três revoluções educacionais. Dentro do processo histórico ocorrido entre essas mudanças, pode-se perceber um legado ainda existente na escola e na sociedade contemporânea.
A chamada primeira revolução educacional tem suas origens no Egito Antigo, de onde se tem relatos das "Casas de instrução", onde os descendentes dos faraós, nobres e sacerdotes eram orientados pela figura do preceptor, aquele que tem a missão de instruir apenas um aluno ou um pequeno grupo deles. Esse tipo de educação encontra-se em outras partes do mundo antigo, por exemplo na Grécia, onde se sabe que no período do Império Macedônico o filósofo Aristóteles foi preceptor do futuro imperador Alexandre, o Grande. Esta relação individualizada de educação pode ser ilustrada por uma obra de Chardin que tem como título A jovem professora, no qual observa-se essa educação exclusiva para apenas uma criança.

CHARDIN, Jean-Baptiste Simeón. A jovem professora, 1736.
National Gallery, Londres.
Considerando que esta pintura data de 1736, conclui-se que este tipo de educação permaneceu por muito além da Antiguidade, permancendo até os anos finais do período Moderno.
Dessa forma, historicamente pode-se explicar como se deu a segunda revolução, a partir do final do século XVIII no processo de consolidação dos Estados Nacionais europeus, quando houve a necessidade de se estabelecerem como nações, procurando suas próprias leis, justiça, governo e uma certa separação em relação ao poder da Igreja. O marco incial para essa nova revolução educacional seria com um decreto do Rei Frederico Guilherme II da Prússia, em 1787, definindo que educação deveria ser pública e de responsabilidade do Estado. Apesar do termo "pública" esse termo não pode ser entendido da mesma forma que nos dias atuais, pois inicialmente atendia somente a alunos do sexo masculino, numa pequena quantidade e situação sócio-econômica homogênea. Assim, na Prússia e em outras nações europeias dos séculos XVIII e XIX não se podia esperar encontrar uma sala de aula com alunos, por exemplo, de famílias rurais, negros ou com necessidades especiais. Apesar do Estado tomar esta responsabilidade para si, esta educação legitimou a exclusão em diversos níveis.

Fonte: Blog "Para entender a história..."

   
Ademais, como se pode perceber nas fotografias, o molde da sala de aula ainda era de um local fechado, como os alunos enfileirados e o professor na posição de detentor do conhecimento, transmitindo-o às crianças. Naquele contexto histórico, essa definição da profissão do magistério é compreensível, pois o acesso ao conhecimento era econômica e culturalmente muito resrito. Entretanto, esse formato de educação se vê de forma muito comum nas salas de aula atuais.
Assim, ainda é muito difícil explanar sobre a terceira revolução educacional sem pensar que ela ainda não é totalmente aplicada, apesar dos esforços teóricos e das tecnologias disponíveis. Essa educação, buscada desde o início do século XX, pretende a democratização e a universalização. Na prática, atenderia às necessidades da "sociedade do conhecimento" e da economia voltada (prioritariamente) ao terceiro setor, além de ser politicamente correta e fazer justiça social. Entretanto, essa educação pretendida ainda encontra inúmeros desafios, que podem ser simplificados na conciliação entre acessibilidade e equidade no espaço escolar, mantendo-se a qualidade. Resumindo, precisa-se reinventar a escola, incluindo no mesmo ambiente as diferenças sociais, econômicas, étnicas, religiosas, físicas, psíquicas etc., de forma que todos tenham acesso qualitativo à educação. Além disso, a figura do professor precisa ser revista, pois o acesso à informação democratizou-se com a novas mídias (principalmente a Internet), necessitando agora de um orientador que ajude os educandos a construir conhecimento.
Ainda falando em desafios, existe a situação em que o referido acesso qualitativo à educação esbarra no quantitativo, pois necessita-se buscar soluções para salas de aula lotadas, convivência, atendimento especial, satisfação de necessidades básicas (alimentação, vestuário, higiene, saúde) num espaço educacional que precisa ultrapassar os muros da escola.
Finalizando, reproduz-se aqui uma idealização de sala de aula que pode ser acessada no site Uma Cidade Interativa (Abril Educação):


É interessante perceber como a maioria das pessoas reage à essa imagem, interpretando que a sala de aula "está uma bagunça", com os "alunos fazendo o que querem" e "quase ninguém presta atenção à professora". Mas, olhando com mais atenção e relacionando às ideias aqui expostas, reafirma-se a noção de idealização mais próxima à educação democrática e universal: alunos com características diferentes, mas tendo igualmente acesso à busca pelo conhecimento, num espaço com estrutura, recursos didáticos, orientação de uma educadora, usufruindo da liberdade para atender aos interesses e necessidades de todos.

Eduardo Carvalho de Almeida
Pólo de Praia Grande

domingo, 7 de agosto de 2011

Ground Zero II

Ontem, 6 de agosto, foi o aniversário não-comemorável do ataque norte-americano  de natureza atômica à cidade de Hiroshima, no Japão. Posteriormente, em 9 de agosto, foi a vez de Nagasaki, marcando os momentos finais da Segunda Grande Guerra em 1945.
Já se passaram mais de 70 anos, mas o aplicativo reproduzido abaixo pode servir como reflexão: Ground Zero II simula o ataque de uma bomba atômica à sua cidade! Isso é possível graças à tecnologia do Google Maps, pois basta digitar o nome da cidade escolhida, selecionar o tipo da bomba e clickar no botão "Nuke It!". Então, é possível conhecer o alcance imediato da bomba, a pressão sofrida e os efeitos posteriores, bastando selecionar também a direção do vento na bússola abaixo do mapa.
Uma característica interessante é a opção de selecionar a bomba (real) a ser simulada: "Weapon Selector" fornece informações sobre quando, onde e como ela já foi detonada. Observe que justamente a Little Boy utilizada em Hiroshima é a que tem o efeito menor, em comparação às bombas posteriores, como a testada pela Coreia do Norte em 2009.
Abaixo, uma simulação em Praia Grande. Click na imagem para abrir o aplicativo em uma nova janela:


A função "Weapon Selector" ainda permite simular os efeitos da teoria que considera um meteoro que atingiu o planeta há 65 milhões de anos, extinguindo os dinossauros.

Referências:
http://www.carloslabs.com/
http://historica.me/bomba-atomica

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Artistas viajantes

Na postagem interior, foi comentada a incrível semelhança entre as paisagens do Rio de Janeiro e as reproduções digitais destes cenários para a animação Rio, de Carlos Saldanha. Dessa forma, dá-se prosseguimento ao tema através de alguns dos chamados "artistas viajantes", que produziram pelas regiões do Brasil principalmente entre os séculos XVII e XIX.
Dentre estes artistas, destacam-se aqui as produções da
Missão Artística Francesa:
A invasão da península ibérica por Napoleão fez com que a Coroa portuguesa partisse para o Brasil em 1808. Ao chegar, D. João VI decretou uma série de medidas econômicas e políticas que mudaram a organização social do Brasil. A família real preocupava-se, ainda, em europeizar o Rio de Janeiro. Posteriormente, a queda de Napoleão propiciou a retomada dos laços culturais entre a França e Portugal. À convite da Corte portuguesa, veio ao Rio de Janeiro a Missão Artística Francesa, chefiada por Joaquim Lebreton, e composta por um grupo de artistas plásticos. Dela faziam parte os pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, os escultores Auguste Marie Taunay, Marc e Zéphirin Ferrez e o arquiteto Grandjean de Montigny. Esse grupo organizou, em agosto de 1816, a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, transformada, em 1826, na Imperial Academia e Escola de Belas-Artes.
Durante os cinco anos em que aqui permaneceu Taunay, o pintor produziu cerca de trinta paisagens do Rio de Janeiro e regiões próximas:
  


Nicolas-Antoine Taunay. Vista do Morro de Santo Antônio, 1816
Debret. O entrudo no Rio de Janeiro, 1823.
Debret, por sua vez, realizou no Brasil uma imensa obra . Fez vários retratos da família real, aquarelas e desenhos sobre o cotidiano da cidade, retratando as atividades dos escravos, dos grupos indígenas e, também, sobre os fatos da vida da Corte. Pintou cenários para o Teatro São João (atual João Caetano) e realizou trabalhos de ornamentação da cidade do Rio de Janeiro, para festas públicas e oficiais, como a aclamação do rei D. João VI. Além disso, foi professor de pintura histórica na Academia de Belas-Artes, tendo permanecido no Brasil durante quinze anos. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o livro "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", publicado em três volumes.

Desembarque da Princesa Real Leopoldina, de Jean-Baptiste Debret.

As viagens de cientistas, artistas e estudiosos tiveram um grande estímulo a partir de 1817, com o casamento da princesa Leopoldina, filha do imperador da Áustria, com D. Pedro. O grande interesse de D. Leopoldina pelas ciências naturais e pelas artes fez com que, em seu séquito, viesse uma enorme missão de cientistas e artistas europeus para explorar esse “país desconhecido”.
Integrando a comitiva da princesa também encontra-se o pintor austríaco Thomas Ender, que viajou pelo interior do Brasil, retratando paisagens e cenas da vida do povo, em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Ender permaneceu no Brasil por 18 anos, período em que produziu mais de 800 desenhos e aquarelas.
Finalizando, fica aqui mais uma sugestão de análise de imagens, priorizando a comparação das paisagens retratadas pelos artistas viajantes no passado e os atuais cenários do Rio de Janeiro. Esta cidade foi escolhida pelo vasto material produzido desde que foi estabelecida como centro político-administrativo do império português - e posteriormente brasileiro -, mas outras regiões também foram retratadas e estudadas da mesma forma. Ademais, a atividade torna-se mais interessante se, além de fotografias e videos, utilizarem-se as imagens geradas para a animação já citada, com a exibição do filme antes de iniciarem-se os trabalhos, ou durante as produções do alunos. A seguir, mais algumas obras de outros artistas estrangeiros:








Clik nas imagens deste post para obtê-las numa resolução maior.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Let me take you to Rio

Frequentemente, presencio pessoas que torcem o nariz quando se fala algo sobre um filme nacional. Talvez isso aconteça porque os potenciais espectadores geralmente dependem das produções divulgadas durante a programação da Rede Globo, com matérias em telejornais ou mesmo incluídas em cenas de telenovelas. Como na maioria das vezes quem vai ao cinema prestigiar um desses filmes se sente no confortável sofá de sua sala, por não conseguir discernir se está assistindo a uma produção cinematográfica ou a uma novela (com os mesmos atores, cenários, qualidade e linguagens), os que se acham críticos chegam à conclusão genérica de que todos os filmes nacionais são de média qualidade.
Sabemos que isso não é verdade e, ao mesmo tempo, também é. Entretanto, péssimas produções existem em todos os lugares (o que dizer de certas comédias “colegiais” americanas?), a diferença talvez esteja nos recursos disponíveis para produção e na capacidade de expandir a divulgação.
Cena do voo de asa-delta ao redor do
Cristo Redentor.
Escrevo tudo isso como prólogo para meus comentários sobre a animação Rio. A necessidade dessa postagem surgiu após ter assistido o filme mais de três vezes (como professor, os meus colegas sabem o porquê) e não parar de pensar sobre esta produção.
Antes de tudo, surgem os comentários negativos: um desenho animado, ambientado no Rio de Janeiro, na época em que a cidade sediará alguns jogos da Copa do Mundo e as Olimpíadas? Será que estão querendo divulgar a cidade para não deixar os estrangeiros se preocuparem tanto com os problemas estruturais destes eventos? Deixo esses comentários para os teóricos da conspiração e já começo comemorando por este ser um filme visto por várias partes do mundo. E qualquer desconfiança se esvai quando se assiste junto a uma criança com seus olhinhos brilhando em ver tantos belos pássaros voando por diferentes cenários do Rio de Janeiro, tão perfeitos em seus detalhes, proporções e cores que nos deixam em dúvida se essas imagens foram produzidas por bytes ou por películas. Talvez por isso o filme também fez os olhos de muitos adultos brilharem.
 Acredito que tudo se deve ao fato de boa parte da equipe de produção ser de origem tupiniquim: o diretor, produção musical, compositores, músicos, todos esses créditos têm nomes brasileiros em sua essência, e nada me tira da mente que este é o motivo por finalmente ver um filme de origem americana ser tão fiel à nossa realidade...

O tucano Rafael tentou ensinar Blu a voar da Pedra da Gávea.

... Não sei se já existe um nome para uma fobia de filmes dublados, mas me incluo nesse grupo, independente da nacionalidade da produção. Mas, geralmente, abro exceções quando se tratam de desenhos animados, pois é reconhecida a qualidade do trabalho de dublagem para animações no Brasil e eu precisava ver este filme em português para melhor aproveitar seu clima. Após matar essa vontade, surgiu outra. Sabe-se que, no trabalho de dublagem, a trilha de sons, ruídos, algumas músicas e vozes de fundo – mantidas no original – acabam por ficar num volume ligeiramente mais baixo e numa frequência diferente para dar vez às vozes dubladas. Assim, ouvi algumas vozes em português com essas características e ficou a curiosidade sobre as vozes no áudio original. Assistindo ao filme – mais uma vez – em inglês, percebi que não só muitos brasileiros “figurantes” realmente falam em português (o que me surpreendeu nesta produção norte-americana), mas também os próprios personagens dizem algumas frases no nosso idioma, como o canarinho dublado (no original) por Jammie Foxx cumprimentar o protagonista Blu com um “Tudo bom?” e soltar “Aí, galera!” antes de sua frase falada em inglês, no meio de uma festa; além disso, muitas das músicas são um misto de cantores interpretando nos dois idiomas.

Enseada de Botafogo, Baía de Guanabara e Pão de Açúcar.
Outra característica que chama atenção é a fidelidade às diferentes ambientações do Rio de Janeiro. Sem exageros, animais e humanos convivem de acordo com a realidade, cenas urbanas contrastam com florestas, o luxo com a pobreza: temos belas praias povoadas por centenas de guarda-sóis e mesinhas da cor vermelha desgastada nos quiosques, Pão de Açúcar, Pedra da Gávea, floresta da Tijuca, bondinho, Santa Teresa, o Cristo Redentor e também feiras com sua beleza caótica, ruas congestionadas e as favelas. Tudo isso devemos ao diretor brasileiro, Carlos Saldanha (já consagrado pela animação Era do Gelo): qual americano colocaria um jogo justamente de Brasil contra Argentina na história? Lembrando que, concomitante à partida, os vilões percorrem as confusas ruas de uma favela atrás das araras (com nosso diretor indiretamente orientando pelo guru da estética da pobreza, Fernando Meirelles), mantendo a tradição de perseguir aves pela favela na tela do cinema, desde 2002. É admirável como Saldanha conseguiu incluir esses cenários do Rio de Janeiro no enredo, de modo que, em alguns casos, as características do local definem a direção que a trama vai tomar.
O menino Fernando introduz o espectador à
realidades das favelas, que não deixam de
fazer parte dos cenários.
A música também é um fator muito explorado. Talvez não existisse produtor musical executivo mais apto para essa tarefa do que Sérgio Mendes. Há tempos divulgando nossos ritmos de forma moderna pelo mundo, Mendes, juntamente com o experiente inglês John Powell e o percussionista-compositor Carlinhos Brown, fizeram uma trilha sonora (infantil) típica do Rio (atual). Samba, bossa e chorinho extrapolam seus limites aliando-se a raves e até mesmo ao funk para resultar em misturas modernas e com letras (traduzidas ou originais) numa linguagem própria para crianças. O ritmo musical, inclusive, define alguns personagens, como o tucano sambista (aposentado) Rafael, o canário malandro Nico e o cardeal funkeiro Pedro, entre outros.
Dessa forma, belos cenários e modernas músicas tradicionais culminam na emocionante cena panorâmica do Sambódromo Marquês de Sapucaí, lembrando perfeitamente o que se vê na transmissão de TV no mês de fevereiro. No áudio original, os personagens principais, coadjuvantes e figurantes interagem em inglês e português, enquanto no fundo os sambas-enredos tocam em sua língua nativa.
Com tudo isso, pôde-se observar do que um diretor e (parte de uma) produção brasileiros são capazes de fazer, tendo em mãos os recursos de uma gigante como a Fox, em estúdios da Blue Sky e da Skywalker Sounds. Outros filmes e animações foram feitos com estrutura equivalente e não conseguiram a chegar a um resultado como o conquistado em Rio. Se os gringos não se importarem com os aeroportos e quiserem aproveitar a Copa ou as Olimpíadas para conferir o que o desenho mostra, todos sairão ganhando, principalmente o talento de nossos mais diversos artistas.


Créditos das foto-montagens: RioTur / ViajeAqui
http://viajeaqui.abril.com.br/fotos/brasil/rio-filme-pontos-turisticos-624656.shtml

sábado, 2 de julho de 2011

Esporte bretão?

É lugar-comum dizer que a popularidade do Futebol se deve à sua incrível capacidade de se adaptar a qualquer realidade - estrutural, econômica, etária etc. -, bastando algo que role de alguma forma (bolas de diversos materiais e tamanhos, tampinhas, material escolar...) e um local para se direcionar o referido objeto (o que nem sempre é necessário, quando se quer apenas driblar)... Também costuma-se chamá-lo de "esporte bretão", "inventado na Inglaterra", o que também é discutível, pois já existem relatos de práticas esportivas com características similares ao atual futebol na China e Japão antigos, Grécia e Roma, além de jogos da cultura maia e outros antigos povos norte-americanos (citando poucas referências).
A paternidade do futebol atribuída aos britânicos se deve ao fato de que nesta terra surgiu a preocupação em se normatizar essa prática esportiva, apenas no século XIX, servindo de referência para as atuais regras do desporto. A Football Association, formada por 11 clubes londrinos (inicialmente, eram 12 clubes), estabeleceu regras para este esporte em 1863, considerado o ano de nascimento do futebol moderno.
  “Futebol”, gravura de R. Cruickshank, publicada em 1827.
Mesmo sabendo que este tipo de informação pode ser conseguida em qualquer enciclopédia, impressa ou digital, chama a atenção a data dos primeiros relatos na China dos séculos III e II antes da era corrente, até a normatização britânica, cerca de vinte e dois séculos depois. Se os referidos clubes preocuparam-se em criar regras para os esporte, posso citar dois dos motivos para isso.
O principal seria diferenciá-lo de outros esportes similares na época, como o Rugby (este era o preferido do clube que ficou de fora da "association"), mas também chama a atenção a necessidade de se organizar um esporte praticado de forma caótica, quase sempre atribuído a situações confusas e à desordem.
“Futebol”, gravura de H. Heath (1830).
Isaac Robert Cruikshank, um caricaturista do século XIX que ilustrou obras como uma edição de "Dom Quixote" e um livro nomeado "Points of Misery". Suas produções mostram situações cotidianas de forma bem-humorada, e basta observar sua visão do futebol (ou "foot ball", o autor grafou os termos de forma separada) publicada em 1827 para se inferir sobre a prática deste jogo, anos antes da regulamentação.
Cruikshank não é o único exemplo. Outra gravura conhecida sobre o futebol é de 1830, produzida por H. Heath mostra uma situação análoga.

Goleiro francês Abbés e Pelé (1958).

Nilton Santos no jogo entre Brasil e União Soviética,
na Copa do Mundo de 1958.
  O francês Fontaine iguala o jogo Brasil 1 x 1 França
 na Copa do Mundo de 1958.
Chegando ao Brasil em 1894, trazido pelo paulista Charles Miller após uma viagem à Inglaterra, o futebol começou como um esporte de elite, mas a sua já citada adaptabilidade popularizou-o em nosso país de forma extraordinária. Participando desde a primeira Copa do Mundo organizada pela FIFA (Uruguai, 1930), o Brasil já sediou uma edição do campeonato em 1950, mas conquistando seu primeiro título apenas em 1958, na Suécia e, posteriormente, mais um título sequencial (Chile, 1962). Deixemos as obviedades de lado e vamos partir para a observação das cenas da época.
Brasil e Tchecoslováquia (1962).

Garrincha marca gol no jogo contra o Chile (1962).

Zito e Amarildo na Copa do Mundo de 1962.
Após a vitória da Inglaterra em 1966, o Brasil voltar a vencer no famoso "México 70", em pleno regime de Ditadura Militar, unindo esquerdas e direitas, ricos e pobres, guerrilheiros e militares, Arena's e MDB's num só grito quando o capitão (da seleção) Carlos Alberto levantou a taça. Aproveitando a deixa, façamos um salto para os anos finais do regime, quando a seleção de 1982 encantou a todos (apesar de não levantar a taça), para disponibilizar fotografias coloridas do evento.
Posteriormente, ainda matendo a tradição de Copa do Mundo e eleições no mesmo ano, comemorou-se 1994 e 2002, bastando observar as fotos e relembrar os momentos de ansiedade e alegria.


  Batalha aérea entre Everaldo e Luigi Riva, na final da
Copa do Mundo de 1970, entre Brasil e Itália.
Pelé na final Brasil x Itália (1970).

Clodoaldo marca na semifinal contra o Uruguai (1970).

Capitão Sócrates em jogo contra a Itália na Copa do Mundo em 1982.

  No memorável jogo entre Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982,
Serginho disputa a bola com dois italianos, Cabrini e Oriali.

Assim, aproveitando a Copa América (e fingindo que não estamos em período de férias escolares) deixo aqui uma sugestão de atividade, consistindo em  mostrar essas imagens aos alunos e solicitar que produzam sobre as mudanças que o futebol sofreu com o passar do tempo (organização, táticas, uniformes, estrutura, desempenho dos jogadores etc.) e também discutir as características da imagens (gravura, fotografia em branco e preto, fotografia colorida em película, fotografia digital...) que registraram essas mudanças (e permanências).

Bebeto marca no Brasil x Holanda da Copa do Mundo de 1994.

Branco cobra falta no jogo Brasil 3x2 Holanda (1994).

Raí no jogo Brasil x Camarões (1994).

Paolo Maldini e Romário lutam pela posse da bola no jogo Brasil x Itália (1994).

Roberto Baggio é marcado por Cafú (Brasil x Itália, 1994).

Taffarel defende o chute de Massaro (Brasil x Itália, 1994).

Romário e o sueco Håkan Mil (1994).

Conquista do pentacampeonato (2002).

Fontes:
The Global Game

L'aimable Faubourien

All Posters

quarta-feira, 25 de maio de 2011

José Leonilson: o coração como matéria-prima

"Léo não conseguiu salvar o mundo."...
O Léo em questão é o artista brasiliero José Leonilson e o mundo que, aparentemente, não conseguiu salvar se apresentou a ele primeiramente em Fortaleza, no dia 1º de março de 1957 e, posteriormente, em São Paulo (1961), onde ingressou na FAAP em 1977 e depois partiu em sua primeira viagem ao exterior em 1981. O mundo, enfim, estava para ser salvo. Entretanto, como já disse André Abujamra, "o mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente" e, no caso de Léo, fica a dúvida sobre qual mundo tentou salvar.
Uma pessoa especial uma vez disse que Leonilson foi "o ser humano mais lindo que já existiu". Ao ouvir essa frase e presenciar a exposição sobre o artista no Itaú Cultural, cheguei à conclusão que também é preciso ser um humano lindo para compreender toda a complexidade do mundo de dentro de Léo.
A referida exposição chama-se "Sob o peso dos meus amores" e está em cartaz até o dia 29 de maio. O destino, sob meu controle ou não, levou-me até lá e descobri uma nova forma de se fazer Arte. Apesar de ser considerado pintor, gravador e desenhista, Léo não só utiliza-se dos objetos mais diversficados (tecidos, sucata, sobras de bijouterias, tinta, linha de bordado etc. etc. etc.), como também nenhuma de suas obras se concretizaria sem a principal matéria-prima, o coração. E este também servirá para que se possa apreciar as obras do artista: não basta olhar, tocar, cheirar... é preciso sentir. Sentir o coração de um talentoso tímido que, além de sofrer todo o preconceito por sua homossexualidade, ainda teve que conviver por dois anos com o conhecimento de ser portador do vírus da Aids.
Está tudo lá: seus sonhos, anseios, desejos, amores frustados e distantes, a família, a doença, o preconceito, os amigos... É interessante perceber que, ao ir a uma exposição para se ver obras, na verdade se viu uma biografia, escancarada, confeccionada pelo próprio protagonista. É latente a presença de pontes sobre rios distanciando cidades, opostos, pessoas, corações. Ainda utilizando mais a sensibilidade e menos o senso crítico, é muito bom (é esse o termo) observar a variação do tamanho das obras, que podem ocupar toda a altura da parede para ficarmos um bom tempo contemplando, ou exigir que apertemos os olhos para enxergar melhor minúsculas montagens e desenhos do tamanho do coração do artista no momento de sua concepção. Pela primeira vez, senti-me à vontade para definir o que um artista estava pensando (sentindo) ao produzir suas obras, pois fica claro que Leonilson quer que façamos isso... E dessa forma, Leonilson nos deixa - e ao mundo - no dia 28 de maio, em São Paulo. Apenas uma data convencionada pelos homens, pois o ser humano continua vivo. Se Léo achou que não conseguiu salvar o mundo - o de fora - com certeza está ajudando a salvar o mundo de dentro de muita gente.



(Com excessão da foto de Leonilson, as obras apresentadas neste post foram fotografadas na própria exposição - era permitido.)