domingo, 13 de novembro de 2011

A escola e as relações com a comunidade: o Fórum escolar de Ética e de Cidadania

Informações baseadas nas vídeo-aulas do Prof. Ulisses Araújo (USP) para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

O termo "entre os muros da escola" é muito utilizado quando se pretende criticar o já ultrapassado método de ensino baseado num ambiente fechado, com carteiras ou mesas enfileiradas e, na maior parte das vezes, alheio à realidade presente nas localidades em que se encontra a estrutura física de uma unidade escolar.
De acordo com o Prof. Ulisses Araújo (USP), "a escola necessita ampliar os espaços educativos, incorporando os recursos da cidade e, prioritariamente, de seu entorno no desenvolvimento de projetos que contemplem a comunidade como espaço de aprendizagem." Assim, faz-se importante o conhecimento dos problemas e benefícios existentes no bairro, aproximando comunidade e escola, de forma que o conhecimento produzido em seu interior não seja considerado à parte da realidade presente ao seu redor.

Uma das formas utilizadas para aproximar a comunidade é abrir os portões da escola aos finais de semana para promover oficinas, esportes, palestras e oferecer serviços de utilidade pública. É uma prática positiva, mas não pode esgotar-se em si. Se tal prática não levar em consideração o currículo da escola, acaba por se tornar uma espécie de "clube", pois mesmo com a presença de educadores, estas atividades não têm relação com o cotidiano da escola durante a semana.
Dessa forma, uma prática positiva seria oferecer atividades que foram iniciadas em sala de aula e ampliadas para a comunidade ou, num caminho inverso e complementar, atividades podem ser desenvolvidas na escola aberta e posteriormente trazidas à sala de aula, de forma a contemplar a interdisciplinaridade transversal.

Além disso, esse movimento pode ampliar-se ainda mais, com a programação de trabalhos de campo com os alunos nos arredores do bairro. Um passeio com anotações, fotografias, filmagens e outros registros feitos pelos próprios alunos, trazidos à sala de aula para identificar os problemas e discutir formas de interferências positivas, construindo conhecimento, beneficiando a comunidade e incentivando o protagonismo juvenil.
Fonte: webdig
Projetos desse tipo não são fáceis de se planejar e se realizar. Portanto, a escola deve buscar parcerias e promover debates que permitam a ampliação do espaço educativo de maneira democrática e eficaz. Uma prática, nesse sentido, é o Fórum escolar de Ética e de Cidadania  (proposto pelo MEC), que tem como papel essencial articular os diversos segmentos da comunidade escolar e não-escolar, que se disponham a atuar no desenvolvimento de ações mobilizadoras em torno das temáticas de ética, democracia e cidadania no convívio escolar, focando de forma específica quatro eixos de atuação: ética, convivência democrática, direitos humanos e inclusão social.
Sua composição deve ser a mais aberta possível: professores, alunos, funcionários, diretores, familiares, membros da segmentos como igrejas, comércio, saúde, segurança, líderes comunitários etc.
Neste fórum, podem ser propostos temas dos projetos interdisciplinares e transversais, prepar-se os recursos materiais para o desenvolvimento das ações e continuamente avaliar as ações em desenvolvimento. Ações estas que atuam junto à direção da escola e aos membros da comunidade para garantir os espaços e os tempos necessários ao desenvolvimento dos projetos, buscando garantir recursos que permitam a aquisição de materiais necessários e interagindo com especialistas em educação e pesquisadores que possam contribuir com o melhor desenvolvimento das ações planejadas. Ademais, articular parcerias com outros órgãos e instituições governamentais e não-governamentais (ONGs), que possam apoiar as ações do projeto e a criação de propostas, promove o enriquecimento dos trabalhos e incorporam os recursos disponíveis no bairro e até mesmo na cidade.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

domingo, 30 de outubro de 2011

O fenômeno do Bullying

Informações fornecidas pela Profª Kátia Pupo, em sua vídeo-aula para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

O bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder.

Dentre as ações de bullying, podem-se citar humilhações, xingamentos, difamação, constrangimento, menosprezo, intimidação, ameaças, exclusão, perseguições, agressão física, roubo, entre outras formas de violência.
Para tomar atitudes contra essas ações, é necessário ao educador diferenciar as "brincadeiras de mau gosto", pontuais, da prática do bullying, que se define por ações repetidas e intencionais de duração prolongada, sem motivação aparente, em situações de claro desequilíbrio de poder, onde a vítima está na impossibilidade de defesa.
Essas vítimas geralmente apresentam-se com pouca habilidade de socialização, dificuldade de reagir às agressões e com características físicas, comportamento, condição sócio-econômica ou orientação sexual diferente do que os outros alunos consideram aceitável; há também vítimas decorrentes de seus comportamentos hiperativos e impulsivos. Muitas vítimas tornam-se agressores e não pedem ajuda por medo de retaliações ou por não quererem decepcionar os pais.
As pesquisas apontam que os agressores são de ambos os sexos e que geralmente apontam comportamento de desrespeito às normas e dificuldade de lidar com frustração. Mantêm posição de liderança negativa e até mesmo cometem pequenos delitos. Seu desempenho escolar é, na maioria das vezes, regular ou insuficiente; são desafiadores e agressivos, com dificuldade em lidar com figuras de autoridade. Em seus valores há a ausência de culpa e mentem constantemente.
Os agressores também são incentivados pelos espectadores, que apresentam omissão diante de cenas de violência física ou moral de forma passiva - pois têm medo de se tornarem vítimas também - ou ativa, fornecendo apoio moral aos agressores. Essas omissões alimentam a impunidade e contribuem para o crescimento do bullying.
Da mesma forma é caracterizado o Cyberbullying ou bullying virtual, com a diferença do uso dos recursos da internet, tornando seu efeito multiplicador e duradouro. Essa modalidade de violência atrai também pela possibilidade de anonimato, que gera impunidade. Os adolescentes compreendem a faixa etária que mais faz uso do cyberbullying, mesmo que este seja passível de ação penal.
As consequências para o indivíduo vítima de bullying definem-se pela tendência ao isolamento, dificuldade de participar de discussões em sala de aula, queda de rendimento escolar, fobia escolar, mudanças de humor, insônia, sintomas de dor de cabeça e de estômago, irritação, ansiedade e tristeza; maior propensão a desenvolver transtornos afetivos, depressão, anorexia, bulimia, síndrome do pânico, suicídio e homicídio.

Fonte: Projeto Bullying

Diante dessa situação, a escola tem o papel de buscar possíveis intervenções antibullying, com a conscientização, sensibilização da comunidade, criando um ambiente de confiança, solidário e ético, com apoio e proteção às vítimas, além de estabelecer regras e limites claros e, ao flagrar o bullying, aplicar sanções que não permitam gerar o sentimento de impunidade.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Práticas de cidadania

Informações retiradas da vídeo-aula da Profª Patrícia Grandino (USP), para o curso de Especialização em "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC).

As ações práticas em cidadania exigem que se tenha uma noção da perspectiva psicossocial sobre a realidade social, a iniciar por uma concepção construtivista que compreende tal realidade como construída historicamente e que o sujeito humano a produz e também é determinado por ela. Além disso, a aquisição de conhecimentos dá sentido ao mundo e constitui processo dialético entre a atividade simbólica e a atividade prática.
As implicações da perspectiva construcionista na abordagem psicossocial enfatiza as representações sociais do processo saúde-doença em diferentes grupos ou sociedades. São essas representações que orientam as ações de todas as pessoas. É preciso compreendê-las, bem como compreender o sentido pessoal que cada um atribui às experiências, caso se objetive interferir nas ações.
O reconhecimento do sujeito humano ampliado pela compreensão psicológica emocional, e como  resultado do entrecruzamento das dimensões histórico-cultural, biológica inter e intrapessoal é uma das contribuições da psicologia para o atendimento em promoção de saúde, assim como o reconhecimento das formas de produção de subjetividades que implicam em crenças e determinam posturas e modos de agir nos sujeitos: a relação entre o saber oficial (científico, médico) e o saber popular precisa ser mediado pela compreensão do sentido construído pelo sujeito (e seu grupo) e pelas representações que subjazem a esse saber.

Dessa forma, todo esse conhecimento teórico permite elaborar as etapas para a elaboração de projetos de atenção direta, partindo do reconhecimento, caracterização e contextualização do campo, passando para o estabelecimento de parcerias com comunidades-alvo e seus representantes. Junto a essas lideranças, levantar de forma conjunta as demandas a serem atendidas, e problematizá-las para definição dos temas dos projetos, tornam mais palpável a aplicação prática de ações que visam a cidadania.


Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Estratégia de projetos e a construção da rede

Informações retiradas da vídeo-aula do Prof. Ricardo Pataro para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Ao escolher um tema transversal para trabalhar com os alunos, o desejo de transformá-lo em projeto educacional traz a necessidade de se seguir alguns procedimentos importantes e sistematizá-los em forma de rede.

Na aproximação ao tema quando os alunos fazem seu primiero contato com o conhecimento a ser constrúido, textos, imagens, vídeos, entre outros materiais didáticos, formam o instrumental para que os educando tornem-se capazes de fazer escolhas de temáticas mais específicas que gostariam de estudar.
A partir daí, discussões e reflexões ocorrem para a escolha de uma das temáticas levantadas, e então chega-se à etapa de elaborar as principais perguntas do projeto, a partir dos interesses dos estudantes, sobre a temática específica que foi escolhida.
Quanto ao planejamento docente, o projeto exigirá um planejamento inicial de conteúdos curriculares que serão abordados de maneira transversal. Então, o projeto segue com atividades e pesquisas em busca de respostas às perguntas dos alunos. Todas essas etapas podem ser visualizadas através de uma rede, que promove o registro do percurso das atividades e relações entre as disciplinas curriculares.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Diversidade / pluralidade cultural na escola

Informações baseadas na vídeo-aula ministrada pela Profª Daniele Kowalewski (USP) para o curso de Especialização em "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC).

A partir da década de 90 do século passado, quando a democratização da educação pública tomou maior relevância, as salas de aula passaram a se configurar com grupos heterogênos e alto grau de diversidade física, cultural, étnica, sócio-econômica, entre infinitos outros tipos que se fazem impossíveis de listar neste texto. Daí a importância da diversidade no âmbito escolar e a construção dos valores para que esta seja contemplada
Fazendo um breve histórico sobre o tema, no que diz respeito às diretrizes criadas no Brasil, pode-se iniciar com a citação da Constituição de 1988 como a primeira legislação de grande relavância que leva em consideração a igualdade de direitos para todos. Em Educação, mais especificamente esta exigência surgiu com a LDB de 1996 (justificando o primeiro argumento deste texto) e mesmo com os PCNs de 1997-98 que sugerem os temas transversais, inclusive um que se define como Diversidade Cultural propriamente dita. Existe ainda as leis de 2003 e 2008 que tornam obrigatórios os estudos de História e cultura africanas e indígenas nas escolas e, mais recentemente, o Estatuto da Igualdade Racial (2010).

Entretanto, este ainda é um tema que está em fase de desenvolvimento, com inúmeras falhas, equívocos e omissões ocorrendo em toda parte, mas que se faz relevante para nossa situação contemporânea e para a construção de uma sociedade mais justa. Apesar dos pontos negativos, sabe-se que as experiência positivas crescem a cada dia em que os educadores e gestores públicos percebem que não é possível fugir desta transformação, a qual como tantas outras, causa impactos e quebras de paradigmas.
Questionamentos sobre o que fazer na escola quanto à temática da pluralidade e se os educadores conseguirão lidar com todas as diferenças (numa crescente progressão geométrica) surgem ao lado de dúvidas que refletem se é possível ensinar sobre o outro, sem torná-lo exótico e, dessa forma, como é possível educar na diferença?

Dúvidas e questionamentos crescem na mesma proporção de ações positivas por parte de escolas, ONGs, empresas e alguns setores do poder público. Faz-se necessário que, mesmo quem já terminou seus estudos, reeduque-se para a diversidade e, assim, a escola torna-se local privilegiado para que os pequenos cidadãos saibam respeitar a si mesmos e aos outros, com a consciência de que, apesar de diferentes, somos iguais em direitos.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Questões de Gênero no cotidiano escolar

Informações fornecidas pela Profª Brigitte Haertel, em sua vídeo-aula para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Dentre os temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do MEC, as questões de Gênero têm espaço para serem trabalhadas em Ética, Orientação Sexual e Diversidade Cultural. A escolha do tema pode ser feita levando em consideração a faixa etária dos estudantes, ou mesmo integrar todos esses temas para um estudo mais vasto, sempre com a preocupação de manter um diálogo entre as disciplinas enquanto os temas perpassam suas áreas do conhecimento.

O próximo passo é conhecer os eixos da discussão a ser feita sobre as questões de Gênero. Aqui se pode citar o construcionismo social (vertente da psicologia social que aborda a performance dos sujeitos quando estão desempenhando diferentes papéis) e a socialização de gênero, que diz respeito à aprendizagem; assim, deve-se ter a noção de que o sexo é uma determinação biológica, enquanto a sexualidade é o significado que o indivíduo atribui à essa condição definida geneticamente.
As relações de gênero são representações socialmente constituídas, e as questões de Gênero vêm justamente analisar e criticar tais relações em sociedades nas quais as diferenças entre os sexos são mais ou menos acentuadas.
Luluzinha e Bolinha, personagens criados
por Marjorie Henderson Buell (Marge).

Em nossos objetivos, deve existir a preocupação de que as pessoas podem ser diferentes quanto ao sexo ou à sexualidade, mas iguais em direitos e capacidades. Prestar atenção à práticas do cotidiano escolar que pontuam as diferenças de Gênero - principalmente as que são realizadas de forma inconsciente, como organizar uma fila separando os meninos das meninas - é essencial para a quebra de preconceitos, bem como extender esse combate ao ambiente familar e aplicar atividades que contenham tais questionamentos não só aos alunos e alunas, mas também a seus pais e mães, ou mesmo outro(a) responsável, fazendo-os refletir sobre as relações de gênero da cultura e/ou sociedade em que vivem.


Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Sentimentos e afetos como tema transversal

Texto baseado na vídeo-aula da Profª Valéria Arantes para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Antes de buscar os caminhos para se tratar os sentiementos e os afetos como tema transversal em sala de aula, faz-se necessário relembrar alguns conceitos que já foram tratados em outros textos, a saber: valores, auto-estima e auto-conhecimento.
Sobre os valores, conforme definição já proposta¹, é conhecido que se referem a trocas afetivas que o sujeito realiza com o exterior e surgem da projeção de sentimentos positivos sobre objetos e/ou pessoas e/ou relações e/ou sobre si mesmo. Já a auto-estima está relacionada à construção da auto-imagem, encontrada em nossa consciência, na qual também identifica-se o que cada um sente sobre si mesmo; portanto, é necessário ter auto-estima positiva para se trabalhar valores. Da mesma forma, tomar consciência dos próprios sentimentos e emoções (auto-conhecimento) é essencial para a construção da ética e da democracia escolar, principalmente no que diz respeito a saber identificar essas características nas outras pessoas.

Conhecer esses conceitos, e suas aplicações práticas, torna possível incorporar os sentimentos e afetos no cotidiano de nossas escolas. Isso também é feito transformando-os em objetos de ensino-aprendizagem, ou seja, tais sentimentos e afetos devem fazer parte dos conteúdos e atividades que são trabalhados junto aos alunos. Quando se deseja trabalhar determinados assuntos, de forma transversal, não significa necessariamente que deve ser realizado como um novo conteúdo ou como projeto educacional; isso pode ser feito de forma implícita durante as aulas. As produções dos alunos refletirão seus próprios sentimentos, mesmo de forma inconsciente, e assim os educadores terão em mãos mais uma ferramenta para conhecer melhor seus educandos e contribuir para a formação de cidadãos éticos.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

¹ Definição do Prof. Ulisses Araújo (USP), em Educação e valores: pontos e contrapontos, 2007, baseado nas teorias de Piaget.

A ética e a cidadania podem ser ensinadas?

Utilizando a vídeo-aula do Prof. José Sérgio Carvalho para o curso de Especialização "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp), acrescento informações para contribuir no debate.

A simples existência da moral em uma sociedade não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discute, problematiza e interpreta os significados dos valores morais
No Ocidente, essa ética ou filosofia moral inicia-se com Sócrates, que perguntava aos atenienses o que eram os valores nos quais acreditavam e que respeitavam ao agir (coragem, justiça, amizade, bem, etc.). Essas perguntas terminavam sempre por revelar que os atenienses respondiam sem ter refletido sobre o que diziam, repetindo apenas o que lhes fora ensinado desde a infância. Ética e moral de uma sociedade referem-se ao seu conjunto de costumes tradicionais e, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros. Em Atenas, Sócrates indagava o que eram esses costumes da sociedade, de onde vinham, o que valiam.
Definindo melhor o campo das ações éticas, Aristóteles diz que as ações não são definidas apenas pela virtude e pela obrigação, mas pertencem também à parte da realidade na qual podemos deliberar e tomar decisões: não deliberamos ou decidimos sobre o necessário (eventos e leis da Natureza), pois é independente da ação humana; deliberamos e decidimos sobre tudo o que, para ser e acontecer, depende da vontade e da ação humana.
Assim, à consciência moral de Sócrates, Aristóteles acrescenta a vontade guiada pela razão (vontade racional) como outro elemento fundamental da vida ética. A vontade racional, a deliberação e a escolha dependem de uma virtude presente em todas as outras: a sabedoria prática (ou prudência).
O prudente é aquele que, em todas as situações, é capaz de julgar e avaliar qual a atitude e qual a ação que melhor realizarão a finalidade ética, ou seja, entre as várias escolhas possíveis, qual é a mais adequada para que o sujeito seja virtuoso e realize o que é bom para si e para os outros.

Demócrito e Protágoras (ao centro), de Salvator
Rosa (1663-64).
Trazendo a discussão para o campo da Educação, o Prof. José Sérgio Carvalho (USP) lembra uma questão proposta por Sócrates: se a formação ética é possível, quem tem o direito a formar? Quem é o mestre nas qualidades de cidadão? Por outro lado, como nós professores poderíamos renunciar em formar nossos alunos para as virtudes públicas e privadas? Citando os escritos de Platão sobre um rival de Sócrates, utiliza respostas advindas de Protágoras, concluindo que a ética não é uma disciplina especializada: os valores que guiam nossas condutas são práticas sociais, influenciadas por todo o entorno social. Em Educação, a formação ética de nossos alunos conta com a participação dos professores e da escola, mas não se esgota nela: a igreja, a mídia, a família, entre outros meios sociais, influenciam na formação ética. Dentro do ambiente escolar, ocupar-se com tal formação é uma tarefa de todos os que trabalham na escola. Além disso, não deve ser alocada na grade curricular, mas a ética não se desvincula dos conteúdos ensinados.

Portanto, desde a era Clássica já existia a noção de que as áreas do conhecimentos propostas pela escola podem trabalhar virtudes e valores éticos, sem a necessidade de se criar novas disciplinas a cada nova exigência da sociedade.


Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Pedagogia de projetos

Texto baseado em vídeo produzido pela Univesp TV para o curso de Especialização semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC).

Sobre estratégias para projetos educacionais, o Prof. Ulissses Araújo (USP) define que tais projetos devem ter um ponto de partida e o planejamento de algumas das ações que serão desenvolvidas, mas o professor, nesse sentido, é um estrategista que vai adaptando o projeto em função do próprio desenvolvimento das ações, da própria coleta de informações e do conhecimento que os alunos trazem, obtendo a possibilidade de fazer alterações no transcorrer dos trabalhos, e até mesmo mudando seus rumos.

Um exemplos prático de projetos com viés ético-político-social pode ser a promoção de um debate entre os alunos, mas de forma que, previamente, promova pesquisas, levantamento de dados, questionamentos e outras ações que tornem tal debate mais consistente e livre de juízos pessoais. Mesmo após as discussões, novos conhecimentos serão construídos, possibilitando o desenvolvimento de outros projetos com os alunos.
Imagem de satélita da Baixada
Santista - Google Maps
O trabalho de campo também traz bons resultados em projetos educacionais. As estratégias solicitarão que os locais a serem visitados sejam estudados em sala de aula, e atualmente, com todos os recursos digitais e acessos a informações de satélites disponíveis, esse conhecimento torna-se bastante extenso e instigante, aumentando a curiosidade dos alunos antes mesmo de chegar ao seu destino. Os trabalhos in loco serão melhor aproveitados se houver diálogo interdisciplinar entre as áreas do conhecimento presentes nos locais visitados. Posteriormente, a análise dos dados e a interação entre alunos e professores trarão luz à outras estratégias para a interferência na realidade em que se vive.

Assim, de acordo com o Prof. Araújo, um projeto consistente e competente é aquele que abre a possibilidade do aluno se desenvolver numa dimensão que não se limita ao conteúdo escolar. É um projeto que vai proporcionar essa condição do aluno problematizar o mundo fora da escola, buscar respostas para suas dúvidas, e principalmente eleborar perguntas e respostas que tenham essa natureza ético-político-social, levando-o a compreender o mundo, visando sua transformação.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

sábado, 29 de outubro de 2011

A construção de valores e a dimensão afetiva

Essas informações baseiam-se na video-aula da Profª Viviane Pinheiro (USP), para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).
 
É bastante conhecida a teoria de Piaget que considera a afetividade como “fonte de energia” para a cognição, concepção que já foi superada (não ignorada) pelo conceito de que a afetividade é um dos aspectos organizacionais do psiquismo humano, considerando o aspecto cognitivo tão relevante quanto o afetivo.

Assim, tais aspectos não podem ser deixados de lado no âmbito escolar. A prática que estimula os vínculos afetivos deve tomar o lugar, por exemplo, do antigo costume de separar amigos porque conversam demais, justificando trazer benefícios para a turma e para os próprios alunos separados. Uma escola que educa em valores lidaria com a situação procurando os benefícios de tal amizade, com trabalhos cooperativos que valorizem os vínculos, disciplinando-os de forma ética e consciente.
O respeito à diversidade também se torna essencial na contemporaneidade, na forma heterogênea que se apresentam as turmas na sala de aula. Dentre os valores morais, a tolerância é de extrema importância para o bom convívio dos alunos, numa escola que os prepara para a vida em sociedade.
Assim, a promoção de um ambiente mais saudável e feliz, em que os sentimentos positivos levam à resolução de conflitos morais, constrói um mundo mais justo e solidário.

Fonte: Cambitolândia

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Dimensões constitutivas do sujeito psicológico

Texto baseado em vídeo-aula do curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Esquema criado pelo Prof. Ulisses Araújo (USP) em sua tese de Livre Docência Educação em Valores e Democracia Escolar: Um Estudo de Psicologia e Educação, 2005:


O sujeito psicológico interage com o meio interno e externo em sua forma consciente e não-consciente, possuindo as esferas biológica, afetiva, sócio-cultural e cognitiva. O meio externo compõe-se do mundo físico, das relações interpessoais e da cultura e/ou sociedade em que vive.
Para uma melhor compreensão de tal sujeito, é necessário considerar essas formas, esferas e meios de forma integrada. Apesar de visualmente o esquema separar esses itens, a complexidade do sujeito psicológico não permite a dissociação dos mesmos.

No campo escolar, ao avaliar a situação de um aluno apenas na esfera biológica, por exemplo, alegando que ele "não aprende" porque tem algum problema neurológico, corre o risco de um julgamento precipitado ao se desconsiderar sua situação sócio-econômica ou que seu ambiente familar possa estar passando por algum conflito que interfira em sua esfera afetiva (sentimentos). Da mesma forma, simplesmente dizer que determinada criança é violenta porque seus pais se tratam de forma violenta ou se divorciaram também desconsidera a autonomia desse sujeito em relação a suas ações. Além disso, o próprio meio externo pode interferir no comportamento de um sujeito, de forma permanente ou temporária.

Portanto, considerar o sujeito psicológico dessa forma complexa abre margem para que outros estudos e esquemas elucidativos possam ser desenvolvidos pois, como pedem as concepções científicas contemporâneas, este esquema não pretende ser estático.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Projetos

Este texto baseia-se na vídeo-aula do Prof. Nilson Machado para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

O próprio conceito de Educação nos remete a outro: a ação. Dentre as muitas definições dispostas pelo dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, aqui é possível selecionar as acepções "capacidade, possibilidade de executar alguma coisa" e "disposição para agir; atividade, energia, movimento", além da rubrica "atividade prática, concreta, que intervém no real em contraste à passividade de uma atitude puramente especulativa ou teórica" (filosofia).
A consciência de expansão do ensino à ação leva ao desenvolvimento de projetos, e como tais devem estabelecer metas e objetivos, visando a antecipação das ações (futuro). Além disso, deve-se estar ciente da abertura necessária e que o processo criativo oferece riscos. Dessa forma, a ação deve pertencer ao sujeito, sendo que a coação para tal é impossível.
Projetos, na maioria das vezes, surgem de sonhos, ilusões, utopias e esperanças, necessárias à sua realização, mas que devem ser reguladas por um planejamento, ações concretas e a definição e constante revisão da trajetória.
No caso específico da Educação, tanto os projetos para curto, longo prazo e expectativas para o futuro devem levam em conta seu conteúdo em valores, por exemplo, no que diz respeito a metas que valem para os objetivos éticos/morais, e mesmo dentre elas existem as metas que valem mais ou menos para tais objetivos. Além disso, na realidade escolar os projetos devem perceber o que deve ser cultivado e o que deve ser combatido, e mesmo o que precisa ser conservado e o que necessita ser transformado.

Fonte: Cambitolândia
Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Conhecimentos em Rede

Este texto baseia-se na vídeo-aula do Prof. Nilson Machado para o curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Currículo, planejamento, avaliação, materiais didáticos... termos recorrentes na prática docente. Entretanto, apesar destes existirem em todas as teorias educacionais, sua abordagem está em constantes transformações, passíveis de críticas e reavaliações.

Uma das metáforas para a busca do conhecimento e ação docente é a que o Prof. Nilson Machado (Faculdade de Educação da USP) chama de "balde renitente", através da qual o conhecimento pode ser medido em níveis. Dessa forma, frases como "os alunos têm nível baixo" ou "não foi atingido o nível mínimo" remetem à referida imagem, assim como os termos "conhecimento acumulado" e "avaliação como medida" reduzem o processo educativo à mera quantificação.
Outra imagem que pode ilustrar os questionamentos aqui apresentado nos levam, mais uma vez, a Descartes: a cadeia de conhecimentos. Decompor em partes e analisá-las da mais simples à mais complexa, para então acompanhar uma sequência de procedimentos, de forma que a solução de um depende da finalização do anterior. Então, na escola, muitos acreditam que só é possível ensinar determinados conteúdos se o aluno possuir os pré requisitos necessários, na forma da educação seriada que permite cumprir todos os percursos necessários.

Projeção hiperbólica das principais partições da
blogosfera -  Data Mining: Mapping the blogosphere, 2007.
Assim, sem descartar os conhecimentos anteriores e sim utilizá-los como complemento, o Prof. Machado indica a alegoria das redes para tratar o conhecimento e a ação docente. O conceito de rede está muito presente nas elucidações da maioria das áreas, por sua disposição que parece permitir a comunicação entre todos os elementos a ela pertencentes. Basta pensar que a partir do computador que se está utilizando para ler este texto é possível acessar infinitos outros blogs, portais, arquivos por todo o mundo, através da conexão a um servidor que se conecta a outros servidores que se comunicam entre si pelo globo.
Da mesma forma, na escola é necessário conectar o senso comum trazido pelos alunos ao senso técnico fornecido pelos educadores de diversas áreas. Por exemplo, os diferentes interesses das crianças podem ser regulados pela noção de acentrismo, na qual não existe um interesse mais importante que os outros, assim equilibrando e expandindo o conhecimento. Ainda exemplificando, conhecer o mundo atual, no qual vivem os alunos, necessita do conceito da metamorfose para se compreender que estamos num processo constante de mudanças e permanências. Entre outros diversos exemplos, essa rede transdisciplinar é atualmente uma imagem para a construção do conhecimento em que haja diálogo, colaboração e respeito mútuo.

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande

Perspectivas atuais da Educação em valores

Informações retiradas de vídeo-aula do curso de pós-graduação semi-presencial "Ética, valores e cidadania na escola" (EVC - USP/Univesp).

Aqui estão dispostas algumas ações práticas, exemplificadas pelo Prof. Ulisses Araújo (USP), sobre articulações entre escola e comunidade:

Gestão por meio de um fórum
Uma das acepções do dicionário Houaiss da Língua Portuguesa para "fórum" é: reunião, congresso, conferência que envolve debate de um tema, e sua etimologia latina remonta as antigas praças públicas onde as questões de interesse coletivo eram discutidas.
Dessa forma, o Fórum Escolar de Ética e Cidadania "tem como papel essencial articular os diversos segmentos da comunidade escolar e não-escolar, que se disponham a atuar no desenvolvimento de ações mobilizadoras em torno das temáticas de ética, democracia e cidadania no convívio escolar, focando de forma específica quatro eixos de atuação: ética, convivência democrática, direitos humanos e inclusão social."
  
Para “fora” da escola;
Extrapolando os limites dos muros da escola, a Educação Comunitária busca o conhecimento que pode ser adquirido observando-se o bairro em que ela se encontra. A identificação dos problemas existentes e a busca por soluções através de mobilizações sociais formam a consciência da cidadania.
  
Para “dentro” da escola
Trazer os problemas identificados no bairro para a sala de aula e utilizar o conhecimento das áreas de forma interdisciplinar, para um melhor esclarecimento e buscar ações de forma transversal. Assim, currículo e cidadania integram-se para benefício da comunidade.
  
O protagonismo dos estudantes
Buscando o protagonismo juvenil, "tanto em seu projeto político-pedagógico como em seu planejamento institucional, a escola precisa considerar a realização de projetos e ações que, ao mesmo tempo, promovam o acesso aos bens culturais exigidos pela sociedade contemporânea e garantam uma formação política aos jovens, de modo a lhes permitir participar da vida social de forma mais crítica, dinâmica e autônoma."

Eduardo Carvalho
Pólo de Praia Grande